domingo, 25 de maio de 2014

Me dê sua mão, hoje não voltaremos para casa



Me dê sua mão, hoje não voltaremos para casa...


Hoje iremos a todos os lugares que gostaríamos de ir juntos.

Hoje iremos sair sem destino, atravessar o mundo e voltar num só dia.

Hoje te levarei para jantar em restaurantes sofisticados e barracas de cachorro-quente.

Hoje te derrubarei nas areias de todas as praias porque seu sorriso depois de ficar brava é o mais bonito.

Hoje encontraremos pessoas que falam idiomas que não entendemos e juntos seguraremos nossas risadas.

Hoje vou caminhar ao seu lado em todas as calçadas para que o mundo nos veja.

Hoje vou sentar com você em todas as praças e observar seu rosto enquanto você está distraída com as crianças brincando.

Hoje vou te fazer correr para chegarmos a tempo dos filmes que veremos.

Hoje vou te carregar de surpresa e te jogar dentro do rio, mas pularei logo atrás para receber minha bronca e meus beijos.

Hoje vou te segurar antes de atravessarmos a rua, pois sei que você nunca espera a hora certa.

Hoje vou te contar o pouco que sei de cada lugar e ouvirei o muito que você sabe.

Hoje te comprarei café preto porque é o seu favorito, mesmo que faça careta enquanto toma.

Hoje beberemos uma garrafa de vinho antes de dormirmos sob a lua de cada lugar.

Hoje faremos amor sob o teto de cada país.

Hoje acordarei antes de você porque minha realidade ao seu lado é melhor do que todos os sonhos.

Hoje vamos ficar onde estivermos.

Hoje vamos ficar em todos os lugares.

Hoje não ficaremos em lugar algum.



Me dê sua mão, hoje não voltaremos para casa...

domingo, 26 de janeiro de 2014

Boneca Russa


Os olhos abriram-se quando uma claridade fraca tocou suavemente o seu rosto. E ali ela ficou por mais alguns segundos, minutos, décadas. Sua mente vagava de uma forma tão cosmicamente solitária e obscura que o tempo interno nunca mais se alinhara com o externo. Não sentia-se no espaço em que estava, não sentia-se deslocar uma massa de ar com o seu corpo, fundia-se, evaporava-se, transformava-se em pensamento puro, seco, nunca dantes lapidado. Sentia tudo, mas não entendia o que sentia, vivia em uma constante implosão da alma. Uma alma que jazia quebrada dentro dela e nada podia fazer. Como consertar-se quando é a sua parte mais interna que está quebrada?

Sentou-se na beirada da cama, jogou os cobertores para o lado e revelou um corpo nu, perláceo, suave, delicado. Ela se levantou e abriu a janela, que rangia com o bater da neve contra seu vitral azul celeste, deixando o frio cortá-la por fora. Os flocos de neve chocavam-se contra seu peito, pescoço e rosto, e dali eles roubavam o que lhe restava de calor e deslizavam num rastro de água, desenhando na superfície da sua pele um emaranhado de veias externas, frias e transparentes. Aquilo fazia com que sentisse que estava ali, que estava presente e que aquela era sua realidade. Aquilo pausava seus pensamentos e a acariciava de uma forma fúnebre. Seria essa a sensação de uma morte eminente? Se fosse, era o mais próximo de sentir a vida que ela conseguia chegar. 

Caminhou em direção ao banheiro, sentindo os pés esfriarem até que já não mais os sentia. Assim, flutuava sem preocupar-se em cair, pois nada sentiria com a queda. O frio que inicialmente a trazia a sensação de vida, era o mesmo que tirava o que lhe restava de sensibilidade. Em frente ao espelho não mais se reconhecia. Via um rosto que perdera todos os traços que já tivera, um cabelo vermelho escorria pela testa como sangue, olhos que tentavam imaginar uma nova realidade no reflexo a sua frente. Estava quebrando por fora também. O que a estava destruindo por dentro queria sair e conseguiria, pois suas forças desfaziam-se ao menor contato com o real. O pior de tudo era sentir cada rachadura e trincado internos aumentando até que mais uma camada virasse pó. E sentia. Sentia-se quebrar, mas o conserto não estava ao seu alcance, se é que alguém pudesse alcançá-lo. Encostou-se na parede fria e deslizou as costas até se sentar. Ali, abraçou as pernas na tentativa de se sentir, de se limitar e não mais fundir-se com o seu redor. Não funcionava mais.

Queria chorar, mas nem isso mais lhe obedecia. O choro vinha quando ele mesmo queria e quando ela não o esperava. Aliás, ela sempre o esperava. Suas lágrimas, suas companheiras, traziam mensagens de que tudo estava errado lá dentro. Lágrimas que brotavam das rachaduras e percorriam o seu caminho até encontrar a luz e beijar sua face. Mais uma vez perdia a noção do tempo externo e por horas ficou ali sentada e esqueceu-se da sua linha de pensamentos. Apenas percebeu o próprio cansado e rastejou-se nua até à cama novamente.

Não vivia mais. Não sabia em que estágio estava, mas era algo entre a vida e a morte. Sentia isso. Desejava saber como chegar a algo concreto. Seria a morte tão concreta quanto a vida? Não importava, a questão era que não suportava mais a instabilidade em que se afogava. Seus pulmões aspiravam incertezas, sua mente era um vácuo, seu corpo desistia. Tudo nela estava simplesmente cansado. Estava cansada. Não suportava ser o que era, não suportava estar onde estava. Os olhos pesavam e sua lógica esvaía-se com o passar dos segundos, até que adormecera. Os sonhos eram o único refúgio da sua insensatez atual, pois neles a lógica não elabora suas jogadas e o imaginário e inexplicável simplesmente existem em paz. Estava em paz em seus sonhos.

Os flocos de neve chocavam-se contra seu peito, pescoço e rosto, e dali eles roubavam o que lhe restava de calor e deslizavam num rastro de água, desenhando na superfície da sua pele um emaranhado de veias externas, frias e transparentes.

sexta-feira, 18 de outubro de 2013

Dum vita est, spes est



O antigo ventilador tentando fazer seu trabalho, mas inutilmente. A sala era abafada, principalmente no fim da tarde. E principalmente no fim da tarde de uma sexta-feira, quando ele já ficava ansioso para largar o serviço e descansar. Estava sentado atrás de sua mesa de metal com pés enferrujados, coberta de folhas de rascunho, receituários, prontuários e cartilhas de saúde. Atrás havia uma parede amarela mal pintada, com alguns cartazes sobre doenças comuns no verão. A sala estava vazia, exceto por ele, obviamente, que acabara de dispensar o penúltimo paciente e fazia suas anotações finais do caso. Ainda tentava se adaptar ao clima e a rotina do lugar, pois era novo na cidade e o mais assustador, novo na profissão. Depois de vários pacientes incrédulos com o novo médico, estava acabando o serviço do dia. 

Mas ainda havia mais um paciente...

Levantou e foi até a porta do consultório, abriu, olhou para a sala de espera e chamou:

- Sr. Antônio!

Um senhor levantou mais que depressa como se levasse um susto por fazer algo errado, deixando o programa de tv de lado e pegando seu boné e sacola na cadeira ao lado, de uma forma meio atrapalhada. Sr. Antônio, um homem de mais idade, com a pele sofrida pelo tempo e pelo sol, muitos cabelos brancos e muitos espaços na cabeça sem cabelo, mas que ele fazia questão de proteger com seu boné de propaganda de posto de gasolina. Vestia uma camisa social, com as marcas de onde mais suava, e muito bem passada, exceto pelas costas que sofreram com o calor na sala de espera. Uma calça jeans velha e um sapato marrom compunham sua aparência. O rosto passava um ar de experiência que duelava com um ar de trapalhão e inocência.

Sr. Antônio se aproximou da porta e o médico lhe estendeu a mão, cumprimentando-o. A sacola quase caiu no chão, por ter se confundido perante o ato. O médico abriu mais a porta para que o homem entrasse no consultório, fechando-a logo em seguir.

- Sente-se Sr. Antônio. Pode ficar à vontade.

- Brigado. Posso colocá aqui? – perguntou deixando a sacola e o boné sobre a mesa.

- Pode sim, sem problemas.

Observou enquanto ele colocava suas coisas sobre a mesa, e perguntou:

- Tá tudo bem com o senhor?

- Eu tô bem dotôr, e ocê?

- Eu...? – o médico se atrapalhou, mas acabou dando um sorriso tranquilo – Eu tô bem também! Como que eu posso te ajudar, Sr. Antônio?

- Intão... Minha muié sempre me mandava eu vir aqui pra consulta. Mais pra te falar sincero, eu não gosto de médico não, dotôr. O sinhôr me discurpe, não é nada contra ocê não.

- Tudo bem, eu entendo. Muitas pessoas não gostam de vir ao médico mesmo não. E o que que te fez vir aqui hoje?

- Intão, de uns tempo pra cá eu acho que tem um trem errado no meu coração, sabe?! Tá isquisito.

- Esquisito, como? Batendo muito forte, muito rápido, doendo?

- É não. É tipo grande, apertando as coisa aqui im dentro. Aí me vem uma sensação ruim que eu choro. Aperta inté a garganta, sabe como é?!

- Isso começou tem quanto tempo, Sr. Antônio?

- Ahh, já tem mais de mês. Quer ver! A gente tá im outubro. Ah, mas foi antes. Lá pra antes do feriado de setembro.

- Começou em agosto?

- Antes, deve de ser desde julho.

- Entendi.

- Mas sou ruim com os dias. Minha muiê que me falava essas coisas.

- Ela não quis vir com o senhor hoje?

- Veio não dotôr. Ela faliceu esse ano. Coração dela parou. Aí vim cá olhar o meu, né dotôr?! – deu uma risada baixa e vazia.

O ventilador já não vencia o ar quente e agora não tinha chance alguma com aquele ar denso que preencheu a sala. 

- Ah, me desculpe. Então hoje a gente vai dar uma olhada nesse coração pra ver se tá tudo certo. 

- Tá bão!

- Deixa eu te perguntar – disse o médico tentando continuar a consulta, mas ainda mostrando um tom e uma fisionomia empática – o senhor tá tomando alguma coisa?

- Tomo nada não. Te falei que nem gosto de médico. – deu outra risada, um pouco mais viva.

- Essa sensação que o senhor tem no coração acontece mais em que hora do dia?

- Ah, vareia, mas quando tô deitando indo durmir que vem o trem estranho, sabe?! Quando cê tá esperando o sono chega.

- Entendi, quando a gente fica pensando em muita coisa né?

- Isso!

- Sr. Antônio, essa coisa do seu coração começou depois ou antes da sua mulher falecer?

- Ah, dortô, deixa eu ver. Foi dispois purquê se fosse antes, minha muié me trazia aqui. – outra risada, mas essa foi nitidamente morrendo e se transformando numa bola na garganta do homem.

O médico percebeu que o assunto ainda era delicado de se tratar, mas não desconsiderava o que imaginava ser o “problema” do senhor sentado diante dele.

- Senhor tá sentindo isso agora?

- Tá começando a vir agora que o sinhôr falô. – a voz engasgando fracamente. – Aí, vem um aperto e um choro sobe. Descurpa.

Segundos após se desculpar os olhos pararam de resistir e soltaram as lágrimas que se acumulavam desde alguns minutos antes, mas que eram escondidas nos sorrisos do velho senhor. Antônio levou a mão ao rosto e começou a secar as lágrimas, rapidamente como se o médico fosse achar ruim do acontecido. Este, por sua vez, esperava que o senhor começasse a chorar, mas ainda assim sentia um leve desconforto e tristeza. O médico apenas pensou que em 6 anos de curso, em centenas de livros e artigos lidos, milhares de aulas assistidas, em nenhum lugar desses o ensinava a lidar com um paciente chorando na sua frente. Mas antes que pudesse tomar qualquer atitude, Antônio se levantou rapidamente, pegou suas coisas e se dirigiu à porta, dizendo:

- Dispois eu vorto. Hoje num tô bem não. – já estava abrindo a porta.

O médico levantou também, foi em direção ao senhor, colocou uma mão no seu ombro e disse:

- Calma. Pode chorar. Vai te fazer bem, mas senta aqui pra gente conversar mais um pouco.

- Hoje não dortô. Cê mi descurpa. Mas eu vou imbora. Depois eu vorto, pode ser?!

- O senhor tem certeza? Vamos sentar e conversar mais. Posso tentar te ajudar.

- Pricisa hoje não. Eu vô, descurpa.

- Então me promete que o senhor vai voltar? Sei que você não gosta de médico, mas volta pra gente conversar mais. Pode vir qualquer dia que o senhor quiser, ok?!

- Vorto sim! Prometo! O sinhôr é bom, dortô. Eu vô vortar porque gostei do sinhôr. Cê inté abriu a porta pra mim. Prometo que vorto!

- Então eu vou te esperar, tudo bem?! Pode vir qualquer dia que o senhor quiser, pra gente conversar mais e olhar esse coração, tá bom?

- Tá bom sim! Pode dexá! – o choro já tinha parado, mas a iminência de um próximo era nítida.

Sr. Antônio caminhou por entre as cadeiras da sala de espera e saiu, mas antes olhou para o médico, ainda na porta o observando ir embora, e acenou para ele. Depois virou-se, colocou seu boné e saiu do posto.

O médico voltou a entrar na sala, sentou na cadeira e ficou pensando no seu último paciente do dia. Tinha certeza que ele voltaria. Acreditava nele. Agora era só esperar. Mas mesmo com todo o ocorrido, uma coisa lhe chamou a atenção naquela consulta. O Sr. Antônio perguntando se ele estava bem.

“- Eu tô bem dotôr, e ocê?”

...

segunda-feira, 22 de julho de 2013

Carne



A pele fria, úmida, acastanhada e endurecida.

Eu repousava sobre minha eterna cama de aço inoxidável, com o cheiro irritante e corrosivo de formol preenchendo minha casa. Meu rosto imobilizado já não lhes contava nada. Meus olhos muito secos e esbranquiçados para que revelassem um pouco além da carne, um resquício de história, um pedaço de vida. Mas elas estiveram ali. Memórias, amores e sofrimentos já fizeram parte do meu corpo, correram pelas minhas veias e artérias, encheram pulmões, acomodaram-se no cérebro, fundiam-se num só ser. Compunham-me. Contudo, essa história se perdeu, separou-se, deixando uma carne fria e um coração cheio de ar e formol. Tornei-me um desconhecido. Todos que me visitavam nada sabem sobre mim, nem o nome, nem de onde eu era, nem mesmo a causa da minha morte. Apenas me observavam, me analisavam, removiam-me órgãos e os colocavam de volta. Seguravam o meu coração, o mesmo que já pertenceu a alguém em algum momento e agora, sequer pertencia a mim. Fígado, baço, pâncreas também eram colocados em potes, deixando dentro um vazio que se juntava ao vazio da alma que se fora. Fora encontrar as outras que ajudaram a construir a minha. As mãos vivas dos visitantes tocam meu corpo morto, tocam o meu vazio e depois se vão, para que outros façam o mesmo. Hora após hora, dia após dia, ano após ano. Não sei dizer os nomes deles, pois nunca conversaram comigo. Conheço apenas os rostos.

Não possuo mais algo só meu, minha privacidade foi posta de lado pra que me conhecessem por inteiro, sou obrigado a ser exposto, sou literalmente dissecado e cada parte de mim é revelada. Meus visitantes, no entanto têm o direito de se cobrirem, de se esconderem por trás de roupas brancas, luvas, máscaras e óculos. Apenas ficam em pé ao meu lado, enquanto nomeiam cada pedaço de mim.

Deitado sobre a mesa de aço há um corpo e ao lado, também.

Deitado sobre a mesa de aço há uma história e ao lado, também.

Deitado sobre a mesa de aço há um passado já vivido e ao lado, um futuro.

Deitado sobre a mesa de aço está a solidão e o esquecimento e ao lado amizades e coleguismos.

Deitado sobre a mesa de aço há um “ninguém” e ao lado, um alguém.

Deitado sobre a mesa de aço está a morte e ao lado, a vida.

Deitado sobre a mesa de aço é onde sempre estarei e ao lado, vocês.

domingo, 7 de abril de 2013

Algodão-doce



Querida Ellie, 

Começo a escrita dessa carta já com os olhos úmidos, a mão tremendo mais do que o de costume e o amor que sinto por você maior do que jamais fora. 

Já se passaram 80 anos desde a primeira vez em que nos vimos. Você se lembra? Éramos duas crianças e nos encontramos no parque após a missa de domingo, enquanto nossos pais nos compravam algodão-doce. Lembro-me de cada detalhe, pois nesse dia eu experimentei, pela primeira vez, a tão sonhada sensação de parar o tempo. Enquanto tudo ao redor se transformava numa fotografia amarelada, você irradiava uma beleza sublime, majestosa, pura. Desde então você é o colorido de cada uma das minhas manhãs, aquecendo minha alma, afagando meu coração tão rabugento e fazendo do mundo um lugarzinho nosso. Minha amada Ellie, você segurou minhas mãos jovens e firmes ao colocar minha aliança e segurou essas mãos enrugadas e hesitantes ao dizer que tudo ficaria bem comigo essa manhã. Me desculpe por ter lhe assustado na noite anterior quando você precisou trazer-me ao hospital. Não esperava que as coisas acontecessem dessa maneira. Eu já estou doente há algum tempo, mas, por favor, Ellie, não brigue comigo por não ter lhe contado, simplesmente não consigo dizer algo que traga outra expressão ao seu rosto que não um sorriso. Porque você me faz sorrir nessa vida, e como! Você é quem sabe contornar a minha teimosia, usando apenas seu jeitinho doce de falar. Você é quem sabe o quanto adoro seus abraços quando saio do banho. Você é quem sabe amar esse coração que sempre foi seu. 

Desculpe-me se minha letra está ficando pior, mas não consigo controlar minhas mãos e minhas lágrimas. Me perdoe também por deixá-la sozinha pela primeira vez. Lembre-se de trancar a janela da sala porque você sempre me pedia pra levantar e conferir quando ouvia um barulho durante a noite. Lembre-se de tomar seu remédio ao acordar, o seu é a caixinha azul... e a minha é a vermelha, mas acredito que essa não precisaremos mais. Não se esqueça de fazer seus exercícios e comer direito, como o médico disse. Ah meu amor, como eu queria lhe fazer um café-da-manhã mais uma vez, pelo menos mais uma vez. E sentar-me e apenas observar você comendo, com uma carinha de sono e ainda com seu pijama. Dormir sempre foi uma de suas paixões, não é mesmo? E dormir ao seu lado sempre foi a minha. 

Obrigado por essa vida que você me deu. Agradeço à menina do parque que me deu um pedaço do seu algodão-doce 80 anos atrás. Agradeço à mulher que caminhou ao meu lado e que amei por 80 anos e continuarei amando onde quer que eu esteja. 

Meu amor por você sempre foi o maior que se pode sentir, mesmo quando o coração enfraquecia, meu amor permanecia inabalável. 


                           Minha querida Ellie, eu te amo! 



   Do seu amado, C. F.

quinta-feira, 31 de janeiro de 2013

Amora, Amor e a Morte



A grama verde e úmida raspava sob seu pé enquanto encarava o lago a sua frente. Estava sentado ali, não sabia por quanto tempo. Nem mesmo sabia onde estava. Mas sentia-se bem, com a brisa da manhã no rosto e observando as ondulações que ele fazia na água com o outro pé. Do outro lado do lago, uma sombra o observava. Não a reconhecia e não fazia questão disso. Deitou sobre a grama e fechou os olhos, deixando os aromas e sons misturarem-se com a sua mente. Deixando toda a natureza que o cercava fazer parte dele naquele instante. Flutuava meio àquilo tudo. Aos poucos, não sentia mais o tocar do solo sob seu corpo, não havia mais cheiros no ar e não havia mais sons, exceto o de passos sobre o piso de madeira. 

Abriu os olhos. 

O quarto escurecia com o esconder do sol no horizonte. Estava deitado sobre uma cama, com lençóis cobrindo-o. Sua filha entrava pela porta carregando uma pequena bandeja de alumínio com seu lanche da tarde. Compreendeu tudo. Aquele era um de seus momentos de lucidez, cada vez mais raros. Nesses instantes tinha a consciência da sua situação, da dor que sentia por dentro e do que sua família fazia. A garota pousou o objeto na mesa de cabeceira e lhe sorriu. O homem a olhou com certo nojo daquele gesto tão falso, mas limitou-se a devolver um meio sorriso. Já havia se decidido a deixar tudo aquilo acontecer. Pegou a fatia de pão que ela o entregava e a faca sobre a bandeja. Mergulhou o objeto no pote de geleia e seguidamente o deslizou na superfície branca e rugosa do pão. Geleia de amora sempre fora sua preferida. E sabiam disso. Enquanto comia, os olhos dela o vigiavam e o apertavam no desconforto da cama. Ao terminar, novamente o sorriso falso foi dado e ela saiu levando tudo que outrora trouxera. Por dentro, ela gargalhava, imaginando que o homem não soubesse o que lhe faziam. 

Alguns minutos depois, a escuridão tomou conta de todo o quarto. Os olhos dele procuravam desesperadamente algo que conseguissem enxergar. Aos poucos, pequenos pontos luminosos surgiam num céu escuro. A noite estava bastante estrelada e quente. Ali dentro da tenda, os gritos dos homens indicava certa urgência. Todos pegavam suas armas e corriam para fora. O ataque havia começado. E o homem estava ali, em pé, agora sozinho, escutando os sons de tiros, explosões e de morte. Pegou uma espingarda e saiu cuidadosamente. A origem dos sons ganhava sua visão. Um cavalo passou em disparada na sua frente quase o jogando ao chão. Caminhou sobre grama e sangue procurando os seus companheiros. Observava cuidadosamente a sua volta, procurando por alguém que objetivasse matá-lo. A arma estava preparada para o tiro, mas ainda não havia encontrado nenhum alvo, nenhum inimigo. Uma chuva fraca começava a cair, molhando seu rosto e misturando-se com o suor do medo. Usou o braço para secar as gotas que lhe caíam nos olhos e quando voltou a enxergar, estava bem no meio do campo de batalha. Atirou no soldado que vinha em sua direção, acertando-o bem entre os olhos. Antes de conseguir preparar a arma novamente, levou uma pancada do lado da cabeça e caiu desorientado com as costas no chão. A guerra agora passava por cima dele, mas o estranho é que nada mais o tocava, como se não estivesse ali. Observava tudo de onde estava. Cavalos passando, batalhas sendo travadas, água, sangue, lama. Virou a cabeça e viu, no topo do morro, o contorno de alguém. Alguém estava sentado, esperando que tudo ali acabasse para chegar a vez dele fazer o serviço. Encarou por alguns segundos aquela sombra com contorno de uma pessoa. Mas aos poucos tudo foi perdendo a forma. As pessoas, cavalos, armas, tudo virava uma fumaça branca e se desfazia no ar. Por fim, só se via branco ou nada se via. Difícil saber. 

O sol batia diretamente sobre o seu rosto, fazendo-lhe acordar, mas o impedindo de abrir os olhos. Levantou a mão para cobrir a claridade que castigava sua retina e percebeu que, sentada ao lado da cama, estava agora sua mulher. Fumava tranquilamente como se ele nem ao menos estivesse ali. Quando percebeu que acordara, ela lhe deu o sorriso falso. O mesmo sorriso falso que passara para a filha. Não suportava mais aquilo. O que mais estavam esperando? Sabia que o estavam envenenando aos poucos, mas nunca quis saber o porquê disso. Sua família o queria morto e isso pra ele já era o suficiente para aceitar a morte que lhe davam no café da manhã. O gosto da sua geleia favorita nunca mais fora o mesmo desde o dia que começaram a matá-lo. O gosto da sua vida também não. A cada refeição perdia um pouco mais das forças e a sua razão e consciência nem sempre o pertenciam mais. Dessa vez, o lanche que sua mulher lhe oferecia tinha o gosto mais forte do que o normal. Compreendeu de imediato. Depois da última mordida, encostou a cabeça no travesseiro, viu sua amada esposa sair do cômodo e esperou. Estava feliz, por mais estranho que fosse. 

Não pareceu passar nem cinco minutos e a porta se abria mais uma vez. Não era ninguém da sua família. Era a sombra do outro lado do lago. Era a sombra que observava a guerra. E ele ficou surpreendido de ver que a sombra tinha os contornos belos e sensuais de uma mulher. Ela caminhou através do quarto, parou por alguns segundos do lado da cama, observando-o e o beijou. Não questionou o ato e quando se deu conta, ela estava por cima dele. Sua mente não conseguia acompanhar o que ia acontecendo. Participava de tudo com pequenos flashes de lucidez. Percebeu que estavam transando, mas não lembrava como tudo havia começado. Seu corpo sentia o contato do dela. Os beijos tinham um amor e uma paixão que há tempos não saboreava. Sentia tocá-la profundamente e o prazer consumia a ambos. Enroscavam-se por sobre a cama num delírio ardente. O orgasmo alcançou os dois no mesmo instante e os gemidos dançaram nos espaços vazios do lugar. 

Sua esposa abriu a porta, olhou em direção a cama e viu o que esperava ver. Voltou-se para trás, encarando os filhos e confirmou com a cabeça. Desceram para o jantar.

quinta-feira, 17 de janeiro de 2013

Te ajudarei a escrever a história que um dia você pensou em apagar



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Lucas estava na cozinha esvaziando as sacolas do supermercado, mas retirando somente o que precisaria para a noite. Odiava colocar as compras nos armários e geladeira, mas por não ter que trabalhar nesse dia, ficou encarregado com as funções de compras e afins. Trabalhava num escritório de advocacia que abrira há alguns anos com mais dois amigos da faculdade. Concordaram em dar-se folga para organizarem os seus respectivos planos de comemorações do dia. 

Estava ansioso pela noite. 

Colocou uma música pra encher o resto do apartamento e foi tomar um banho. Debaixo da água, cantava junto todas as músicas e até mesmo as que não sabia a letra. Estava feliz demais para preocupar-se com isso. Após sair do banheiro e vestir sua camisa branca e calça jeans, ouviu a porta da frente sendo aberta, com o característico som de um molho de chave batendo na madeira. Chegou à sala a tempo da porta revelar aos poucos o rosto de André. 

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Com um papel na mão, Lucas chega em casa e mostra à mãe o desenho que havia feito do novo amigo da escolinha. Ela abre um sorriso e diz: 

— Que lindo, meu filho! Qual o nome do seu amiguinho? 

— Victor! Ele mudou pra nossa cidade na semana passada. Ele também gosta de desenhar e a gente tem a mesma altura! – falava sempre sorrindo. 

— Que bonitinho. Depois chama ele pra brincar com você aqui em casa. – ria internamente de como as crianças tinham a bonita capacidade de aumentar a felicidade das pequenas coisas. 

Saiu gritando de felicidade pela ideia da mãe, apertando com força o papel. 

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— Victor, vou pegar mais uma cerveja, você quer uma? 

— Quero sim. Valeu cara! 

O salão estava lotado, casais se beijando, outros procurando por beijos, outros apenas tentando ficar em pé, mas o álcool não os deixava. Era a sua formatura de ensino médio e ali seria o lugar em que veria muitos dos seus colegas e amigos pela última vez. 

“Última vez”. Isso ficou martelando na sua cabeça por meses e martelava de forma brutal nesse dia. 

De volta ao círculo de conversa entregou a cerveja para o seu amigo, que novamente agradeceu. Bebiam enquanto relembravam cenas hilárias dos anos passados. Lucas suava frio com o turbilhão de pensamentos que o torturavam. Não conseguia parar de olhar para Victor. Todos os seus pensamentos naquele instante e naquele lugar eram sobre ele. Na maioria das vezes que temos dificuldade de falar o que estamos pensando, de exteriorizar um sentimento ou sofrimento contido, é por falta de um gatilho que dispare isso. 

“Última vez”. Esse era o seu gatilho. 

—Victor, bora ali fora. Te falar uma coisa. 

—Beleza! 

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Sentado na calçada observando as pessoas saindo da festa, mas por vezes olhava para o chão quando percebia que os olhares caíam sobre ele. Olhares de pena, de escárnio, olhares confusos. Deveria ter ido para a casa após tudo que acontecera, mas sentia-se desorientado, fraco, vulnerável. 

O sangue que escorria do seu supercílio misturava-se vagarosamente com as lágrimas que caminhavam pelo rosto. E a cada segundo que passava odiava-se mais e mais pelo que fizera. A conversa com Victor não foi nada do que esperava. Por alguns instantes, duvidava do que realmente havia acontecido, se era real ou se apenas tinha imaginado, entretanto o sangue aguado que pingava no chão trazia-lhe a veracidade dos fatos. E cada gota era um soco na sua consciência, uma facada no seu confuso espírito. 

“—Victor, eu queria te contar uma coisa, mas tenho muito medo do que você teria a dizer sobre isso. Então acho melhor eu dizer de uma vez. A gente é amigo desde criança, você sabe né?! Você sempre foi o meu melhor amigo durante todos esses anos, sempre me ajudou e me fez rir como ninguém. Só que o problema... bem não sei se é um problema, mas enfim. De uns tempos pra cá, durante nosso ensino médio, minha cabeça começou a ficar um pouco confusa e comecei a ter alguns pensamentos que eu não tinha. Comecei a sentir coisas diferentes... é... diferentes, acho – as mãos suando exageradamente. Deveria mesmo estar dizendo aquilo?! –. Eu tô gostando de você mais do que como amigo – Lucas sentiu-se leve por um instante, mas o silêncio que se seguiu foi como se o ar se transformasse em chumbo. 

— O que você tá querendo dizer, Lucas? Que conversa é essa? 

— Eu acho que te amo – começava a ver o mundo embaçado pela lâmina de lágrimas que cobria seus olhos. 

— Você tá achando que eu sou bicha?!?!? – essa frase foi o que Lucas ouviu após declarar um amor pela primeira vez. 

— Não é isso, é só... – não fazia ideia do que dizer. 

— Cala a boca Lucas! Essa conversa acabou!! Que desgraça aconteceu contigo?! Para com essa conversa de que me ama! Vou voltar pra festa! – virou-se e começou a caminhar. 

— Espera! – gritou Lucas e segurou o braço do amigo na tentativa de acalmá-lo ou finalizar a conversa. Entretanto esse gesto pode ter sido um erro. 

— Sai! – Victor virou-se e socou o rosto do amigo, assustando-se com a própria atitude. Mas não voltou para ajudá-lo. Caminhou de volta para a festa atordoado, assustado, olhando para trás várias vezes numa tentativa de confirmar se o que acontecera foi real.” 

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Os gritos enchiam a casa e a vizinhança. Enquanto isso Lucas fora mandado para o quarto e trancado enquanto seus pais “pensariam em uma solução para o problema”, como disseram. O menino ficou deitado com a cara no travesseiro, torturando-se com os próprios pensamentos, questionando se realmente havia um problema com ele, odiando-se como nunca. Acreditava fielmente ter perdido o seu melhor amigo, perdido a primeira pessoa que amou e, agora, perdido o seu lugar e carinho na família. 

Os gritos acabaram. 

Seu pai entrou no quarto com ódio derramando dos olhos. Pegou uma mala que estava encostada na parede e jogou brutalmente em cima do filho. Os dois ficaram alguns segundos encarando-se, até que seu pai disse: 

— Saia dessa casa! – virou as costas e bateu a porta. 

Ouvia sua mãe chorando, mas ela nada fez a respeito, o que refletia o posicionamento dela sobre o assunto também. 

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A mente tão perdida quanto o corpo. Vagava pelo passado, presente, futuro, ruas, becos e esquinas. Sentia-se sozinho. Ficou num quarto de hotel naquele dia e no seguinte procuraria ajuda de alguém. 

Ali, deitado olhando para o teto, refletia sobre si mesmo. Sobre todo o amor que tinha pela família e como isso não significou muito quando foi considerado “diferente”. Sabia que não havia feito nada de errado, mas sentia-se errado. Fizeram com que se sentisse assim. 

A tristeza que o fazia companhia no quarto era enorme, comprimindo cada parede e expulsando todo o ar do lugar. Pensava em morrer, pensava em suicídio, entretanto a vida que queria ter era mais forte do que a vontade de matar-se. Pelo menos era o que queria acreditar. Era o que precisava acreditar. 

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Acabara de chegar da faculdade e abriu a geladeira pra analisar o que teria para comer. Encontrou um último iogurte e alguns biscoitos na mesa. Levou para a sala para comer enquanto assistia à televisão. 

Morava há 2 anos com alguns amigos que conhecera no restaurante em que trabalhava como garçom. Eles faziam cursinho enquanto Lucas estudava em casa durante o dia e trabalhava durante a noite para pagar as próprias contas. Coincidentemente todos passaram juntos nos vestibulares dos respectivos cursos e decidiram por continuarem morando como estavam. Manteve o seu emprego, mesmo durante o curso. Nunca mais seus pais o procuraram ou ligaram ou mandaram cartas. Nada. Seguiu sua vida da maneira que conseguiu, anda com cicatrizes, mas nenhuma ferida aberta. 

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Saía do cinema rindo, com os braços sobre o ombro do seu namorado. Conheceram-se numa festa de um amigo de um amigo e lá conversaram bastante. Conectaram-se de uma forma que apenas quem já passou por isso sabe como é. A partir de então trocavam mensagens, telefonavam, saíam quando os dois tinham algum tempo livre. Lucas estava com uma ideia de criar um escritório com alguns amigos e isso o mantinha bastante ocupado. Seu namorado trabalhava numa empresa de automóveis. 

Caminharam pelo resto da noite até chegarem à porta do prédio de Lucas. Ali trocaram algumas palavras mais sentimentais, carícias e beijos. Por fim despediram-se. 

— Até mais! Chegando em casa eu te ligo. Não durma! – sorria mesmo durante a despedida. 

— Pode deixar! Até mais André! – ficou observando-o ir embora atravessando a noite e apenas quando estava subindo as escadas percebeu que estava sorrindo há algum tempo. 

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A porta terminou de abrir e os dois se abraçaram. Lucas começou a falar: 

— Comprei algumas coisas pra celebrarmos. Como foi no trabalho? Sacanagem fazer vocês trabalharem na véspera de ano novo. 

— Pois é, mas acabaram liberando mais cedo. – respondeu André, sorrindo como se o trabalho do dia não diminuísse sua felicidade para aquela noite. 

Seria a primeira virada de ano que passariam na própria casa. Há alguns meses decidiram morar juntos, assim esse ano havia sido muito especial para ambos. 

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Lucas sentou na varanda olhando para o céu ainda escuro. Dentro de alguns instantes os fogos iriam colorir a paisagem e misturar-se com as estrelas. A noite estava com um clima frio, mas agradável. Ali, sentado sozinho, ele pensou em tudo que passou até chegar onde estava. Pensou em Victor, no quarto de hotel, nos pais que nunca mais o procuraram, entretanto André dominava sua mente naquele dia. 

Os pensamentos foram interrompidos pelos gritos na rua. Era a contagem regressiva para o novo ano. O famoso clichê de um ano ainda em branco, esperando para ser preenchido com histórias. 

— André! 

— Tô indo! 

André chegou, mas não se sentou ao lado de Lucas. Preferiu abraçá-lo de lado, enquanto olhavam para a mesma direção. 

Os fogos começaram a explodir na imensidão negra do céu. André começou a dizer: 

— Feliz Ano No... – mas foi interrompido por Lucas. 

— Eu te amo. – pela segunda vez dizia essas palavras. Mas dessa vez os olhos dele não tiveram a coragem de encarar o do outro. Um traço de medo e insegurança ainda o acompanhava. 

Seguiu-se um tempo de silêncio. Questão de alguns segundos, mas que pareceram horas para Lucas. Tempo suficiente para a lâmina de lágrima surgir. 

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André o abraçou ainda mais forte, beijou-lhe e disse: 

— Eu sempre te amei.

quinta-feira, 1 de novembro de 2012

Espaço Morto



Os amigos em pé ao seu redor em um típico círculo social, copos nas mãos, vozes alterando-se algumas vezes, assuntos nem tão importantes e nem tão irrelevantes. Falavam, falavam, ao mesmo tempo ou individualmente, disputavam a audição dos demais. Enquanto isso, ele apenas observava. Revezava o olhar entre o ambiente, as bocas sendo escancaradas para que as palavras escapassem, o próprio copo que se esvaziava mais rápido do que conseguia perceber. Olhava frequentemente para o chão em busca de nada, fugindo de alguma coisa que nem mesmo sabia. Ou no fundo sabia, mas não tinha certeza sobre a vontade de fugir. Abriu a boca e começou a falar por cerca de um minuto e quando acabou percebeu que nenhum havia interrompido o que dizia para escutá-lo, sua voz não alcançou nenhum dos disputados ouvidos. Ninguém nem mesmo percebeu que o haviam ignorado, que o deixaram contar para as paredes uma das coisas mais importantes que vivia no momento, ninguém se importava com o que ele tinha a dizer. 

Ninguém se importava... 

Abaixou a cabeça e encarou a quantidade de bebida que ainda restava no copo, suficiente apenas para cobrir o fundo transparente de um copo de plástico descartável. Tão descartável quanto qualquer palavra que saísse da sua boca, palavra que era muitas vezes reprimida pela própria consciência, mas que de alguma forma se desprendia das cordas da sua garganta visando um pouco de luz, de espaço. Porém quando saía apenas um espaço morto a esperava. Mentia para si mesmo quando pensava estar acostumado com aquilo. Mentia para se proteger. Mentia para que as lágrimas nunca chegassem. Mas, de tempos em tempos, elas chegavam. E ele as escondia dos demais, pois lhes pertenciam. Eram lágrimas de um sofrimento que crescera junto com ele e que ganhava espaço nos seus pensamentos e, frequentemente, tomava as rédeas das emoções e o conduzia para uma dolorosa e incômoda angústia. Das lembranças de vida que tem posse, sempre notou a ausência de alguém que o escutasse verdadeiramente. Alguém que abrisse os ouvidos e a mente, que lesse cada movimento muscular mínimo que fizesse durante a sua fala, que procurasse o lugar para que os olhos dele estivessem focados. Talvez isso fosse uma exigência absurda de se esperar de outro alguém. Talvez. Mas sentia-se no vazio, no vácuo do espaço onde nenhum som se propaga, nenhum som nasce. 

Tentou falar novamente e por um breve instante algumas cabeças se viraram para ele, mas esse momento acabou quando outro começou a dizer algo. Cortou a sua própria fala no meio, sem que ninguém percebesse novamente. Uma frase amputada pairava no ar, mas só ele a via. E ela caía vagarosamente rumo ao chão, rumo à inexistência e lá ficaria e morreria. Morreria como muitas outras... 

Era curioso pensar que as pessoas que o conheciam há mais tempo e que já possuíam certo grau de intimidade e, até mesmo, de amizade eram as que menos se importavam em lhe dar ouvidos. Estranhos o ouviriam com atenção, nada excessivo também, mas escutariam sem interrompê-lo. Talvez fosse por mera educação, por receio de pedirem que alguém se calasse ou estariam mesmo interessados no que ele tivesse a dizer. Então, por que as pessoas mais próximas eram as que aprenderam a ignorá-lo? Não que fosse sempre, pois algumas vezes cediam um pouco dos seus respectivos tempos para que ele fizesse um discurso, uma confissão, um pedido, uma piada. Até mesmo deixá-lo livrar-se de um segredo. Por vezes, sufocava-se de segredos, mas nesse quesito a culpa era dele. Sentia-se bem de ser o único portador de alguns acontecimentos da sua vida, carregando fardos que talvez ficassem pesados em alguns momentos, mas aceitava a condição de carregá-los sozinhos. Talvez haja uma dose de egoísmo da parte dele também ao criticar a surdez seletiva dos amigos dessa forma. Afinal, não suportaria viver sem eles. Sabia que as pessoas eram movidas sempre por algo ao longo da vida, um sonho, um objetivo, uma ambição e, por mais que tentasse fugir do clichê, reconhecia que os amigos que possuía eram o fator que o mantinha em frente, sempre em frente. Outra coisa curiosa que percebia era que, por mais próximo que um amigo fosse, ainda existiriam coisas que só se conta para um outro amigo. Nenhum deveria saber de tudo e o tudo deveria ser dividido entre os demais. Concordava com isso, pois acreditava ser uma questão de equilíbrio e não uma mera falta de confiança. Enfim... 

Desviou-se do cemitério de frases no chão e foi em direção à cozinha, passando pelas pessoas na casa. Abriu a geladeira e encheu o copo. Não voltou dessa vez para o círculo de amigos e ficou sentado no chão encostado na parede, com o copo em mãos e o olhar perdido. E ali ficou enquanto todos riam, conversavam, bebiam, vomitavam, namoravam. Sua ausência foi tão notada quanto a sua presença. E ali ficou, apagando-se meio ao vai-e-vem das pessoas. O tempo ia passando e, aos poucos, seu rosto ficava transparente, seu corpo ia sumindo. 

Alguns segundos depois, alguém esbarrou no copo que estava no chão, derramando o conteúdo. A pessoa procurou o dono do objeto, mas não encontrou, então fingiu não ter acontecido nada e voltou para a festa.

quarta-feira, 3 de outubro de 2012

O Homem Que Lia Estrelas



Numa cidade de sempre noite, viviam milhares de pessoas um tanto quanto diferentes do que se conhece. Até mesmo a própria cidade desvia-se do nosso conceito monótono de normal. Primeiramente, não se sabe onde fica ou quando existiu ou se existiu. Talvez ainda exista. Além disso, um fato curioso, pelo menos para mim, é que a manhã nunca o alcançou esse lugar. A noite, a lua, as estrelas e a escuridão sempre estiveram sobre o mesmo. Os relógios eram uma mera forma de organizam-se, posto que não serviriam para informar as horas do dia da forma que o conhecemos. Para os habitantes isso era o habitual, pois nunca viram ou tiveram outra realidade. Diz-se que ninguém nunca saiu ou chegou nessa cidade, todos sempre estiveram lá. As pessoas que lá vivem também possuem também as suas peculiaridades. Cada um, criança ou adulto, homem ou mulher, é capaz de ver o futuro da própria vida. Até onde podem ver? Por que tem esse “dom”? Confesso que não sei responder. 

Uma cidade onde surpresas não existem, onde cada ação já tem a sua reação minunciosamente conhecida, onde a vida não tem mistérios, onde o futuro não pertence a deuses. Chega a ser confuso entender, pois se conseguem ver o futuro o que eles veem no presente? Ou simplesmente não vivem o presente por estarem sempre de olhos à frente do tempo “real”? Contudo, sempre há um “porém”. Como eu já havia dito, lá sempre é noite e são as estrelas e uma enorme lua as responsáveis pela fonte de luz. O “porém” é que, uma vez por ano, surge uma segunda lua, idêntica a primeira. Nada de mais até então. Entretanto, nesse dia de duas luas ninguém, nem adulto nem criança, nem homem nem mulher, pode ver o futuro. A nossa história acontecerá nesse místico lugar e nesse excêntrico dia. Assim, contarei o que se sabe, sem saber de onde ou porque sei. 

Havia um homem que possuía uma habilidade que ia além do complexo fato de ver adiante. Ela podia ler as estrelas. As estrelas reavivavam o passado, iluminavam o presente e confidenciavam uma espécie de futuro. Mas esse não era precisamente exato, pois uma variável das estrelas é que contam com a imprevisibilidade da natureza humana. Em todos os dias de duas luas, a população formava filas em frente à casa desse homem para que este lhes dissesse o que, naquele único dia, não conseguiam saber sozinhos. Ele não se importava com aquilo, habituara-se, sentia-se útil. E a enorme fila, aos poucos, diminuía após cada leitura do homem. Achava aquelas pessoas relativamente estúpidas, por não aproveitarem esse dia com a imprecisão e o não-conhecimento que lhes era dado. Viver ao menos um dia com o gosto da dúvida e a ansiedade do novo e do imprevisível. Por esse motivo, tal homem não olhava para o próprio futuro há anos, apenas para as estrelas. Confiava nos olhos e demais sentidos para que o guiassem ao longo do tempo. 

Quando a última pessoa da fila foi-se, percebeu que uma estrela ainda não havia lhe contado uma história. Ou seja, alguma pessoa da cidade não o procurara. Escolheu não ler a estrela sem que o dono dessa o pedisse. 

Pouco antes de a segunda lua partir, subiu no morro mais alto da cidade para observar a partida dessa visitante anual. Ali, diante das luzes de todas as casas e sob a luz de todas as estrelas, o homem observava. Uma mão tocou-lhe o ombro e virou-se. Uma mulher desconhecida estava parada, por vezes o encarando e por vezes encarando as luas. Não sabia o que ela pretendia, poderia saber se quisesse. Mas não quis. Por nunca tê-la visto, deduziu que seria a dona da estrela que não fora lida e, consequentemente, alguém que não queria ter conhecimento do futuro. Por alguns segundos, ficaram parados apenas observando ambas as faces e olhares. E, finalmente, ela o beija no exato momento que sobra apenas uma lua flutuando no manto negro do céu. 

Um flash de luz e visões invade a mente da garota que assiste, involuntariamente, um futuro que a pertencia. Um futuro que lhes pertencia. Ela viu sua vida ao lado dele. 

Um raio de sol separa o beijo do casal e, dessa vez, as visões invadem o cérebro do homem. Depois de um longo tempo sem olhar para depois do presente, ele viu um futuro que o pertencia. Um futuro que apenas o pertencia.

sexta-feira, 17 de agosto de 2012

Simplesmente, paz



O alarme do celular o fez abrir os olhos lentamente, sem compromisso com o novo dia. Deixou a música tocando por mais alguns minutos, apreciando a calma que ela lhe passava. Sempre escolhia toques mais tranquilos como despertador e dessa vez Guaranteed abriu sua manhã. O apartamento estava um tanto quanto bagunçado e empoeirado, o que geralmente acontecia quando estava sozinho. Ficou deitado olhando o teto, conferiu as horas no celular e percebeu que havia recebido uma mensagem de “boa noite” de um dos seus amigos, mas só a tinha visto naquele momento. Simplesmente, sorriu. Levantou e ligou seu computador, mas dessa vez sem interesse algum. Conferiu tudo o que precisava e o desligou alguns minutos depois. Sentia-se envolto por uma paz que há muito não lhe fazia companhia. Não entendia bem qual o motivo, talvez porque todos ao seu redor estavam bem, familiares, amigos, colegas. Ou talvez era ele quem estivesse bem consigo mesmo. Não importava, estava realmente em paz. Foi até o guarda-roupa e pegou um livro que há tempos o comprara, mas ainda não havia lido. Deitou novamente e começou a leitura. Raramente ocupava-se apenas com uma tarefa, assim, também trocava mensagens com os amigos meio a história fictícia que iniciara. Era uma forma de fazer parte do dia deles e deixar com que compartilhassem do seu dia. Na maioria das vezes, não falavam nada de muito importante, simplesmente bobagens, piadas, trocadilhos. Amava seus amigos, mesmo que não conseguisse expressar como sempre quis, mas acreditava que eles sabiam. E sabiam. 

A hora do almoço passou sem que percebesse e não teve ânimo de ir ao restaurante, talvez por não querer sair da tranquilidade em que estava ou talvez por ainda estar cheio com o hambúrguer que comera de madrugada com alguns amigos. Decidiu por fazer uma faxina no apartamento. Arrastou alguns móveis da sala, ligou o aspirador e começou a desempoeirar o lugar. O barulho que o objeto fazia não superava a música que derramava dos seus fones, caindo diretamente dentro dos ouvidos, dentro da mente e talvez até mesmo dentro da alma. De início, não percebeu que estava sorrindo e quando notou sentiu-se um pouco bobo, mas não se desfez do sorriso. Chegando ao quarto, arrumou todos os livros, papéis, dvds antes da limpeza. Surpreendia-se por ainda não estar careca, levando em consideração a quantidade do seu cabelo que havia no chão. Mas o que mais lhe chamou a atenção não foi o próprio cabelo e sim os longos fios castanhos claro que estava sobre os travesseiros e lençóis. E mais uma vez o riso bobo estampou-se na cara. Algumas noites atrás, dormira com uma bela garota, simpática, alegre e divertida. Somente os dois sabiam a respeito da noite que compartilharam. Ele raramente falava sobre sua vida pessoal, ela concordava e, mesmo não o conhecendo muito bem, compreendia-o. Talvez esse ocorrido também contribuísse para o estado de espírito em que ele se encontrava. Trocou a roupa de cama, dirigiu-se até à cozinha para um lanche e depois deitou-se para assistir um filme. 

Um dia como outro qualquer. Talvez. Mas sentia o oposto. E sentia-se bem, sentia-se cheio, sentia-se leve. Sentia-se simplesmente em paz.

quinta-feira, 5 de julho de 2012

A Caixa de Pandora



Colocou o pó de café na água já borbulhando. Enquanto a água escurecia, lavou uma xícara, preparou uma torrada e sentou-se. A música da cidade enchia o pequeno apartamento. A cozinha, como sempre, bagunçada e com um cheiro de podridão. Não se importava com isso, adaptara-se. Observava as moscas pousando sobre os talheres, mas a mente não estava ali. Nunca esteve. Estava molhada de suor, pois teve mais uma das noites de insônia que costumava ter. O sono fugia dela enquanto os pensamentos e lembranças fortes e nauseantes a tomavam. Não eram recentes. Insistiam em conviver com ela há anos, e isso a tornava a mulher que era. 

Cresceu em uma família pequena e simples, assim como a sua cidade. Amava seus pais e sua irmã. Era uma boa garota, sempre foi. Muito amigável e sorridente com todos. Talvez fosse isso! Não saberia. No entanto, hoje vivia em uma metrópole, na tentativa de deixar para trás aquilo que lhe marcou a infância e a vida. 

Lembrava-se que tudo ocorrera no dia do aniversário de seu pai. Preparavam uma festa surpresa pela primeira vez. Ela estava com 11 anos nesse dia. Estavam ansiosas com a chegada dele, conferindo se nada estava faltando enquanto riam-se de imaginar a reação do homem da casa. Mas esqueceram das velas! Por que se esqueceram disso? Se alguma delas colocasse as velas no carrinho de compras, tudo teria sido diferente. Mas não colocaram. A garota anunciou que iria comprá-las e voltaria em um instante. Correu para a porta da frente e enquanto a fechava deu um largo sorriso para a mãe e a irmã. Havia uma mercearia a dois quarteirões de sua casa. A rua já estava deserta, o que era normal para o horário, assim, acelerou um pouco o passo, tanto por um pouco de medo quanto por empolgação. Chegou à mercearia, foi para a prateleira de festas, pegou as velas e foi para o caixa. Praticamente sem fila, apenas um homem que já estava pagando. Na sua vez, cumprimentou alegremente o homem do caixa e mostrou as velas que tinham esquecido de comprar mais cedo. Voltando para casa, ficou observando os pequenos detalhes brilhantes na cera branca e azul. Distraiu-se tanto que não percebeu que um homem parou na sua frente. Era o homem da fila. Assustou-se de imediato e congelou com coração disparado. 

- Oi garotinha. É o seu aniversário? 

Não conseguia responder. Não queria conversar com ele. A estavam esperando em casa! 

- N-n-não. 

- Não fique com medo de mim. – deu uma risada e um passo a frente – Posso ver as velinhas? 

Antes que pudesse responder ou, até mesmo, pensar, ele deu mais um passo e colocou a mão sobre a boca da menina e a ergueu no ar. A carregou para fora da rua principal, entrando em um pequeno campo de futebol cercado e também deserto. Ela tentava gritar e se contorcia entre os braços do homem. Chorava como nunca havia chorado. Não sabia porque ele fazia aquilo. O que ele queria? Pra onde a estava levando? Ela não tinha mais que alguns trocados no bolso. Mas não era o dinheiro que ele queria. Era simplesmente ela. A deitou na grama sem tirar a mão da sua boca e sentou-se sobre ela pra controlar sua agitação. Como chorava! Começou a rasgar suas roupas e a deixou completamente nua sobre a grama do campo. A menina ainda segurava as velas, mas já quebradas entre os dedos devido à força com que as apertava. Os gritos não venciam a forte mão do homem, segurando-os. Impedindo cada grito de ser livre. Impedindo a garota de ser livre. Ele levou a outra mão ao zíper da própria calça e começou a abrir. A partir desse instante a garota não abriu mais os olhos. E o homem, sem um resquício de piedade, a abusava. Rasgava sua alegria, matava uma parte dela, uma parte que nem mesmo a garota conhecia bem. A fazia sentir coisas tão ruins que nem era possível que expressasse. Em determinado momento, parou de se contorcer e de resistir. Esperava que tudo acabasse, mas esperava longe do campo, longe da cidade, longe. Desmaiou. 

Acordou, vestida, na sua casa, cercada pela família e por alguns policiais. Ouvia uma agitação na porta da sua casa. Os vizinhos estavam todos na porta querendo saber o que havia acontecido e tentando ajudar como pudessem. A menina não entendia muito bem o que havia acontecido ou se foi tudo real. Quando tudo lhe voltou à mente, sentiu-se suja e envolvida por um emaranhado de sentimentos tão cruéis, que sentia sua alma ser apertada, como se fossem os braços do homem. 

Passaram-se 15 anos desde então. Os mesmos sentimentos ainda a envolviam. 

Levantou, pegou o café e serviu-se. Após acabar de beber, dirigiu-se ao quarto e deitou-se ao lado do rapaz que estava na cama. O conhecera no dia anterior em uma livraria e passaram a tarde juntos. Gostou do jeito calmo e simpático dele. Com o cair da noite, decidiram dormir em seu apartamento, mas nada além aconteceu. Ela apenas disse que não estava pronta. Ele lhe deu um beijo no rosto, sorriu e abraçou. Dormiram com esse mesmo abraço. Agora, ela lhe deu um beijo no rosto, o acordou e sussurrou em seu ouvido: 

- Estou pronta, mas terá que me prometer apenas uma coisa. 

Após ouvir o que ela disse, hesitou um pouco, mas concordou sem entender o porquê. E após todos esses anos, ela se entregou a um homem e foi amada de uma forma que nunca havia conhecido. Ele foi carinhoso com ela durante cada segundo até que essa nova experiência terminasse. 

Minutos depois ele saiu do apartamento. Olhou para ela do corredor com um olhar triste, mas compreensivo. E cumpriu a promessa que lhe foi pedida: a de nunca mais se encontrarem. A história deles seria aquela, de apenas um dia. Ambos ficariam com aquele momento, em que tudo foi perfeito, e parariam por aí. 

De volta ao quarto, abriu a gaveta e pegou pedaços quebrados de velas. Os jogou fora. Todos os sentimentos cruéis estavam agora presos fora dela, bem longe dela. Mas um sentimento novo agora ficou trancado junto do seu peito. Sentia a companhia da esperança.

sexta-feira, 16 de março de 2012

Dia!


- Corre Quincas! – gritou Bié enquanto via que o amigo ainda estava atravessando o arame farpado, rasgando ainda mais a camisa. 

Um segundo depois, estavam lado a lado de novo. Com suas canecas de alumínio nas mãos, andavam de passo ligeiro sobre a grama e os pés sumiam sob a névoa da manhã. As cabeças dos bois ao redor os seguiam, observando a pressa dos garotos, e o galo, por vezes, acordava as redondezas e quebrava o ar gelado do lugar com seu canto imponente. Pularam pra estradinha que cortava a fazenda. O mato crescia só no meio, enquanto as laterais não tinham mais vida com o sempre pisar das rodas da carroça e dos cavalos. Cada um corria de um lado, meio que competindo, mas sempre cuidadoso de não deixar o outro pra trás. Chegaram ao curral, onde o João das Graças tirava o leite das vacas, sentado no seu banquinho de madeira de um pé só. O rádio, sempre ligado nessas horas, fazia companhia pra ele, com as notícias da cidade e a missa do Padre Manuel. Quando viu os meninos se chegando, abriu um sorriso aberto. Uns dentes já lhe faltavam, mas a alegria sobrava demais. 

- Dia, mininus! Caíram da cama pra de tá tão cedo qui no curral? 

- Dia, João! – falaram juntos e estenderam as canecas sem mais nenhuma palavra, apenas deram de volta um sorriso, cada um. 

O vaqueiro pegou as duas canecas com uma das mãos, levou pra debaixo do peito da vaca e, com todo o movimento preciso de ordenhar, encheu uma de cada vez. Entregou-as aos garotos, que já as levaram a boca. Bebiam numa velocidade que nem a garganta acompanhava, fazendo escorrer um pouco do leite pelo queixo e cair na roupa suja. Quando acabaram, abriram a boca em satisfação e em busca de fôlego. Deixaram seus copinhos de alumínio ali e correram. 

- Eita diacho! Pode levar essas caneca do cêis! Vô levar não! – João das Graças gritava. Mas foi em vão. 

Quincas e Bié apenas riram e iam deixando a voz braba do vaqueiro pra trás. Foram em direção ao riacho, que descia ali perto. Mesmo com o frio da manhã, o sol já os estimulava a entrar na água. Deixaram os calções, sapatos e camisas na areia da beirada e entraram num pulo. Adoravam aquela curva do rio, ali não tinha perigo de pedra e a água era calma. Os dedos do pé enterravam na areia fina do fundo e fechavam-se, apreendendo parte dela. Nos cantos mais rasos, tentavam pegar os peixinhos com as mãos. Quincas era melhor nisso e sempre que pegava mais de um, dividia com o Bié. Não os matavam, só os sentiam nadando na palma das mãos. Era uma sensação muito boa. Logo depois, os peixes estariam de volta ao riacho. Ficaram ali por um tempo, até a fome indicar que já era hora do almoço. Rumaram pra casa, inicialmente foram correndo sem as roupas até secarem, depois pararam para se vestirem e correram de novo. Criança tem uma pressa pra fazer tudo, vive numa correria, uma espécie de pressa de viver. 

Na cozinha, o almoço já cheirava. O fogão de lenha ficava com fogo baixo pra não deixar a comida esfriar. A mãe do Bié serviu o prato dos dois. Quincas não era parente de ninguém da casa, mas foi ali criado desde que sua mãe tinha falecido. As mães dos dois eram por demais amigas também. Então os dois meninos eram irmãos, mas irmãos de nascença separada. Com os pratos nas mãos, sentaram-se na varanda e ali comiam e proseavam sobre o que fariam antes que o dia terminasse. A comida era simples, mas era muito gostosa. A farinha, o arroz, o feijão, a carne de panela, tudo do mais simples e do mais saboroso. Depois da barriga cheia, deitaram nas redes e ali ficaram esperando a digestão. Com o som dos pássaros ao redor, cochilaram. 

Naquela mesma tarde, foram para a casa da Dona Terezinha porque era dia de quitanda novinha. Chegaram de mansinho na cozinha e, enquanto ela tirava mais uma fornada, cada um pegou um pão bem quentinho e saiu correndo. A mulher gritava, xingava e os amaldiçoava. Mas ela era igual ao vaqueiro João. Fingia que brigava com os meninos e eles fingiam que acreditavam que era briga de verdade. Todos ali nas redondezas amavam demais os garotos e suas brincadeiras. Andavam sempre juntos e nunca se ouviu história de briga entre eles. 

Bié correu tanto que acabou deixando o chinelo para trás, mas na emoção da brincadeira não quis voltar pra buscar. Sentaram na beira da estradinha para comer os pães. O sol, já bem alto, castigava a pele branca de Bié e a pele escura de Quincas, mas não pareceram se importar. Ainda riam enquanto mastigavam, por vezes até gargalhavam só de olhar um para o outro. Quando acabaram de comer, ficaram sentados por mais um tempo sem falar nada, olhando para o pasto a frente deles. 

- Bora Bié? 

- Vamo sim, Quincas. 

Voltaram para a casa, cada um de um lado da estradinha, separados somente pelo mato que crescia no meio.

terça-feira, 17 de janeiro de 2012

Ela


Fechou a última mala e correu os olhos pelo quarto. Tudo já estava guardado para a mudança. Sentou-se na cama e ficou observando todos os móveis e roupas que preencheram seu quarto por alguns anos. As memórias caminhavam na sua frente e um nó apertava sua garganta. Era o seu último dia naquela cidade e estava pronto para ir. Mas antes, tinha um assunto a tratar. Pegou um envelope na mesa e saiu. 

Desceu as escadas e saiu do prédio. A rua estava com a movimentação banal que sempre gostou. Cruzou com vizinhos passeando com os cachorros, com uma mulher saindo da padaria e passou na frente do restaurante que por muito tempo almoçou. As cadeiras estavam por cima das mesas enquanto a água lavava marcas de pés e comidas derrubadas. Descia a rua com o envelope nas mãos suadas. Não estava nervoso ou confuso, o que sentia misturava-se com todos os demais sentimentos. Mas queria fazer o que estava indo fazer e disso tinha certeza. O caminho não era longo, mas passou tantas vezes por ali que pareceu que cada passo não era do presente. Cada passo representava outro dia que passara por ali e a história de cada um deles. As companhias, os assuntos conversados, os tropeções inevitáveis nas rachaduras, as chuvas e os dias de sol. E assim os anos iam passando pela sua cabeça, enquanto que apenas alguns minutos se passavam fora dela. Virou em uma esquina e logo mais virou novamente. Chegara à rua que queria. Andou mais um pouco e chegou ao destino. De frente para a casa, respirou fundo e tocou a campainha. Ao apertar o pequeno botão o som encheu a residência e o coração dele pareceu acelerar. Apertou o envelope como se tivesse dúvida de que estava ali. Pela janela, um rosto surgiu e depois de reconhecer o garoto desapareceu por trás das cortinas. A porta se abriu e ela saiu. Caminhava pelo jardim em direção ao portão. Mas não caminhava de uma forma simples, era uma maneira divertida de andar, que não conseguiria explicar. Para ele aquilo era normal, pois a conhecia há anos. De frente um para o outro, ela abriu o portão e sorriu, convidando-o a entrar. Ambos sabiam que era bem provável que fosse a última vez que ele entraria ali, mas nada disseram. 

Não entraram na casa, pois o que ele tinha de fazer era breve. Levantou a mão e lhe entregou o envelope. Por alguns segundos ela não soube do que se tratava. Milhares de pensamentos podem tê-la bombardeado, mas só teria certeza de qual era o certo quando abrisse o papel. Pegou o que lhe era entregue e abriu. Havia uma fotografia envolvida por uma carta. Ela olhou para a imagem e mergulhou num lago de memórias e reflexões. Se outra pessoa olhasse para o retrato não veria nada de especial, mas é assim que funciona. Por mais que se tente explicar uma fotografia, somente aqueles a quem ela pertence sabem o quão longe a mente é acordada. O quanto está escrito por entre àquela confusão de tinta. Ela permanecia muda. Olhou para a carta e depois para o rosto dele. Os olhos dele diziam: “Leia!”, mas ela não suportaria fazê-lo na frente dele e tinha certeza disso. Então, a garota limitou-se a dizer: “Não vou ler agora não”. Ele já esperava por aquilo e simplesmente sorriu. O que ali estava escrito pertencia aos dois e somente a eles. Somente os olhos dela saberiam como ler as palavras dele. Ele a escreveu com as lembranças dela na sua vida, assim a carta era feita com uma mistura de sentimentos de ambos. As palavras não conseguiriam dizer tudo, mas não precisavam, pois era ela quem iria ler e também era ela quem saberia ultrapassar as simples palavras ali gravadas. Era ela. 

Abraçaram-se como se fosse o último abraço que dariam e despediram-se. Saiu para a rua, deu mais uma olhada para o rosto da garota e seguiu em frente. Passando pela última vez por aquela rua. A dúvida de quando se veriam de novo foi a sua companheira no caminho de volta.

sábado, 14 de janeiro de 2012

Guardanapos na mesa de um bar


Noite de sábado e o bar estava lotado, nada de anormal. A música ao vivo competia com as vozes sóbrias e alteradas do local, além do sempre presente som de algo se quebrando. Os garçons costuravam por entre as mesas levando as cervejas geladas e recolhendo os cascos vazios, num ritmo apressado e quase dançante. Os tira-gostos temperavam o ar, enchendo as bocas de água e, os estômagos de desejo. 

Entretanto, a mesa deles não estava na parte interna do bar, mas sim na calçada, próxima ao pulsar da rua. A noite não estava muito quente, mas a temperatura do lado de fora era a ideal. Eram quatro amigos, conversando, bebendo e rindo. Ao primeiro olhar, passavam a impressão de serem muito diferentes entre si, mas posteriormente vinha a certeza: eram muito diferentes entre si. O que se sentava voltado para a rua usava óculos, vestia-se com um terno preto e tinha uma cara um pouco mais séria. Entretanto era o que mais ria na mesa. Todos estavam rindo bastante, mas este parecia quase se mijar de tanto gargalhar. À esquerda do homem de óculos estava um com um estilo mais jovem. Era mais musculoso, com tatuagens ilustrando os braços, e tinha a cabeça raspada. Parecia já ter perdido para o álcool a noção da força e do espaço, se é que algum dia a teve. Caiu umas três vezes da cadeira, derrubou 2 garrafas e parecia espancar os demais quando fazia algumas brincadeiras típicas que, do ponto de vista dele, exigiam contato físico. À direita do homem de óculos estava um homem mais alto e mais magro com uma camiseta branca com um cogumelo verde do Mário de supernintendo. Enquanto bebia, fazia cada vez mais citações de jogos ou filmes “nerds”. Por fim, o homem de costas para a rua era bastante curioso. Não era baixo nem alto, nem gordo e nem magro, nem muito forte nem muito fraco. Não possuía uma característica física que lhe chamasse a atenção, mas era cheio de manias. Sempre colocava a nova garrafa de cerveja que chegava por cima do anel de água da anterior, folheava o cardápio várias vezes e observava o interior do bar procurando... nada, apenas gostava de observar. 

Estavam ali há 2 horas. Os assuntos que conversavam nada tinham de especiais, casualidades e dia-a-dia apenas. Conversavam sobre nada com nada. Mas como viam-se apenas nos fins de semana, cada um tinha a sua hora de ser o narrador na mesa. Não que tivesse uma ordem, mas quando um iniciava a narração os outros o ouviam com total atenção. A maioria das histórias ou estórias contadas terminava em gargalhadas com cerveja saindo pelo nariz. E outras deixavam todos revoltados, provavelmente alguma reclamação de algo que ocorreu no trabalho. Não é muito fácil explicar o que faziam ali naquela mesa. Uma forma objetiva e subjetiva de resposta seria dizer que eles simplesmente estavam sendo amigos. Mas a menor das preocupações deles era tentar entender o que estavam fazendo ali, simplesmente estavam vivendo suas vidas. Ou melhor, compartilhando suas vidas. 

Conversavam, bebiam, conversavam, riam, brigavam, conversavam mais, abraçavam-se. Os assuntos pareciam não ter fim. Ou pelo menos, eles não queriam que tivesse. Queriam evitar que o silêncio caísse sobre a mesa, pois muitas vezes ele vinha acompanhado das frases do tipo: “É né! Hora de ir embora” ou “Bora pedir a conta?”. E isso significava que só se veriam na próxima semana, se não houver imprevistos. Mas nessa noite o silêncio demorou a dar as caras e levantaram da mesa quase na hora do sol do domingo aparecer. 

Pediram a conta e quando esta chegou, tentaram fazer a divisão de cabeça, mas viram que estavam bêbados demais pra isso. Pegaram um guardanapo e fizeram os cálculos com um pouco de dificuldade, mas conseguiram. Entregaram a quantia para o garçom. Despediram-se com apertos de mãos e abraços fortes. Três pegaram táxi e “homem observador” foi a pé, pois morava mais perto dali. No meio do caminho percebeu que estava com o papel rabiscado de números na mão. Olhou para ele, sorriu sem saber porquê e o guardou no bolso.

sábado, 29 de outubro de 2011

Curar


Abriu a porta com muito cuidado. Não queria fazer nenhum ruído. Entrou com calma e chamou os que estavam atrás dele para que entrassem. No quarto havia várias camas, mas seus ocupantes estavam adormecidos, calmos, puros na brancura dos sonhos. Cada um dos que entravam posicionava-se ao lado de um dos sonhadores, aguardando o momento certo para agir. Pareciam nem mesmo respirar. Entreolharam-se. 

Era hora. 

O que se encontrava mais próximo a porta ligou o som que trazia e a música expulsou todo o silêncio que ali repousava. Ao mesmo tempo, todos os outros beijaram os rostos adormecidos e depois gritaram, com um enorme sorriso, “Bom dia!”. Os sustos duraram uma fração de segundos e foram logo substituídos pelas risadas angelicais e inocentes das crianças das camas. Havia balões, chuva de confetes de todas as cores, palhaços dançando e fazendo malabarismos. As gargalhadas invadiam todo o prédio, quarto por quarto, pessoa por pessoa. Médicos, enfermeiros e pacientes acotovelavam-se para olhar a alegria das crianças pelo pequeno vidro da porta. E os que conseguiam ver, mesmo que por um segundo, já eram infectados pela sensação e, simplesmente, sorriam junto. Sorriam sem nem mesmo conhecer uma daquelas crianças. Mas o que importava isso? Eram crianças e pronto! E nada era mais belo que aquilo. Dentro do quarto, a empolgação era tanta, que muitos já estavam pulando de cama em cama, enquanto outros tentavam pegar os balões que lhes fugiam das pequenas mãos. 

No canto, rostos eram pintados de acordo com as mais diferentes escolhas que saíam da imaginação fértil das crianças. Um menino, com desenho de focinho de cachorro correu pelo quarto latindo e dando beijos, que pareciam mais lambidas, nos rostos das meninas, que sorriam e ficavam envergonhadas. Uma pequena garotinha fez um desenho de uma coroa de ouro na sua pequena cabeça branca, como a neve. Não havia um fio de cabelo sequer em sua cabeça, mas não importava. Não ali e não agora. Simplesmente desfilava com sua jóia e seu lençol como se fosse a mais bela das rainhas. E realmente era. Todos faziam reverência enquanto passava por eles. E como ela ria lindamente. Um menino pediu o nariz vermelho de um dos palhaços, que lhe perguntou o porquê de tal desejo. A criança simplesmente disse: “Porque eu quero ser feliz todos os dias!”. O palhaço o olhou por alguns segundos, o abraçou e o rodou no ar. Quando estavam de volta no chão, tirou o próprio nariz e o colocou naquela cara cheia de esperança. O menino agradeceu e saiu pulando por entre os balões. 

Em algum tempo, as gargalhadas começaram a dar lugar aos bocejos e pálpebras pesadas. Foram todos para as respectivas camas e ouviram uma bela história, encenada por todos os palhaços. Alguns conseguiram ouvi-la até o final, mas outros não tinham mais energia e adormeciam. Mas logo depois, todos estavam vivendo os mais belos sonhos. Dormiam como princesas, cachorros, fadas, anjos, gatinhos. Dormiam com a eterna felicidade de um simples nariz vermelho.

sábado, 17 de setembro de 2011

Cemitério de deuses


Ela estava na beira do córrego, enchendo algumas vasilhas com água. As montanhas ao longe a observavam, assim como as raras árvores e animais que cercavam o ambiente. O sol, majestoso e cruel, castigava suas costas com o seu fervor. Entretanto, Khamalla adorava ir até aquele lugar. Não era longe da sua aldeia, mas gostava de afastar-se um pouco dos demais para pensar, brincar sozinha com sua imaginação e, frequentemente, rezar. Ali era o seu recanto. Sentou-se na margem, molhando os pés. A água geladinha desenhou um sorriso em seu rosto. Fechou os olhos e colocou os dedos no colar que sua mãe lhe dera. Era feito com lascas de árvores bem vermelhas e algumas pedrinhas pretas. Khamalla o adorava. Sempre que conversava com seus deuses, segurava-o entre os dedos e pedia proteção para todos que amava. 

Não soube quanto tempo passara ali, de olhos fechados. Mas um grito arrepiante a fez levantar bruscamente. O som vinha da direção da aldeia. Correu para ver o que estava acontecendo. Subiu uma pequena montanha, olhou para baixo e viu sua tribo ser atacada por outra, inimiga. Eram dezenas de homens altos, velozes, portando lanças assustadoras e um olhar que pedia por morte. Seus troncos nus estavam pintados com faixas brancas e vermelhas. E o som que lhes saia da boca provocava o terror em todos que o escutavam. Lá de cima, ela procurou sua mãe em meio ao caos de mortes e de dor. Os olhos das duas cruzaram-se imediatamente e nesse instante sua mãe gritou: 

— Khamalla! 

Nunca ouvira seu nome ser pronunciado daquela forma. Era um som cheio de desespero, medo e amor. O rosto da sua mãe estava regado por lágrimas. Um segundo depois, esse mesmo rosto foi atravessado por uma lança, formando-se uma mistura de lágrimas e sangue, que escorria e pingava de forma suave na terra. E a pequena menina acompanhou tudo, de longe, mas o que sentira naquele instante estava bem perto. Estava dentro dela. Sentiu o gosto da morte. Khamalla abaixou-se ao perceber que o assassino de sua mãe procurava a dona do nome gritado. Correu para onde estava antes de tudo começar e escondeu-se atrás de uma enorme pedra barrenta e seca. Ficou ali imóvel, abraçando os joelhos e apertando seu colar com tanta força que um filete de sangue coloriu suas mãos. Pedia por ajuda como nunca pedira antes. 

Quando o sol começou a esconder-se timidamente por trás das montanhas, ela levantou e, de forma cuidadosa, voltou para sua aldeia. O que vira ali, nunca mais sairia da sua mente. Todos mortos. Todos! Caminhava ao lado daqueles que amou um dia, molhava os pés com o sangue ainda quente que cobria a terra. Ali estavam as crianças com quem brincava e todos que cuidavam dela. Eram uma família. Não acreditava no que aconteceu. Pouco mais a frente estava sua mãe, com o rosto desfigurado e voltado para o lugar onde a menina estivera pouco antes. Olhou dentro dos seus olhos mortos e não havia mais nada neles. Não havia medo, não havia preocupações, não havia amor. Sentou-se ao lado dela, afagou-lhe os cabelos e percebeu o quanto estava chorando. Nunca estivera tão só. 

Pouco depois, Khamalla cavou uma pequena cova. Não era funda, mas era o suficiente e o máximo que conseguiria. E ali, nesse pequeno buraco, ela enterrou sua mãe, seu colar, sua fé e seus deuses. Bateu a mão sobre a terra fofa, levantou-se e começou a caminhar, mas sentia as lágrimas voltando e começou a correr para longe de tudo. E corria, sozinha, em direção ao sol.