domingo, 7 de abril de 2013

Algodão-doce



Querida Ellie, 

Começo a escrita dessa carta já com os olhos úmidos, a mão tremendo mais do que o de costume e o amor que sinto por você maior do que jamais fora. 

Já se passaram 80 anos desde a primeira vez em que nos vimos. Você se lembra? Éramos duas crianças e nos encontramos no parque após a missa de domingo, enquanto nossos pais nos compravam algodão-doce. Lembro-me de cada detalhe, pois nesse dia eu experimentei, pela primeira vez, a tão sonhada sensação de parar o tempo. Enquanto tudo ao redor se transformava numa fotografia amarelada, você irradiava uma beleza sublime, majestosa, pura. Desde então você é o colorido de cada uma das minhas manhãs, aquecendo minha alma, afagando meu coração tão rabugento e fazendo do mundo um lugarzinho nosso. Minha amada Ellie, você segurou minhas mãos jovens e firmes ao colocar minha aliança e segurou essas mãos enrugadas e hesitantes ao dizer que tudo ficaria bem comigo essa manhã. Me desculpe por ter lhe assustado na noite anterior quando você precisou trazer-me ao hospital. Não esperava que as coisas acontecessem dessa maneira. Eu já estou doente há algum tempo, mas, por favor, Ellie, não brigue comigo por não ter lhe contado, simplesmente não consigo dizer algo que traga outra expressão ao seu rosto que não um sorriso. Porque você me faz sorrir nessa vida, e como! Você é quem sabe contornar a minha teimosia, usando apenas seu jeitinho doce de falar. Você é quem sabe o quanto adoro seus abraços quando saio do banho. Você é quem sabe amar esse coração que sempre foi seu. 

Desculpe-me se minha letra está ficando pior, mas não consigo controlar minhas mãos e minhas lágrimas. Me perdoe também por deixá-la sozinha pela primeira vez. Lembre-se de trancar a janela da sala porque você sempre me pedia pra levantar e conferir quando ouvia um barulho durante a noite. Lembre-se de tomar seu remédio ao acordar, o seu é a caixinha azul... e a minha é a vermelha, mas acredito que essa não precisaremos mais. Não se esqueça de fazer seus exercícios e comer direito, como o médico disse. Ah meu amor, como eu queria lhe fazer um café-da-manhã mais uma vez, pelo menos mais uma vez. E sentar-me e apenas observar você comendo, com uma carinha de sono e ainda com seu pijama. Dormir sempre foi uma de suas paixões, não é mesmo? E dormir ao seu lado sempre foi a minha. 

Obrigado por essa vida que você me deu. Agradeço à menina do parque que me deu um pedaço do seu algodão-doce 80 anos atrás. Agradeço à mulher que caminhou ao meu lado e que amei por 80 anos e continuarei amando onde quer que eu esteja. 

Meu amor por você sempre foi o maior que se pode sentir, mesmo quando o coração enfraquecia, meu amor permanecia inabalável. 


                           Minha querida Ellie, eu te amo! 



   Do seu amado, C. F.

quinta-feira, 31 de janeiro de 2013

Amora, Amor e a Morte



A grama verde e úmida raspava sob seu pé enquanto encarava o lago a sua frente. Estava sentado ali, não sabia por quanto tempo. Nem mesmo sabia onde estava. Mas sentia-se bem, com a brisa da manhã no rosto e observando as ondulações que ele fazia na água com o outro pé. Do outro lado do lago, uma sombra o observava. Não a reconhecia e não fazia questão disso. Deitou sobre a grama e fechou os olhos, deixando os aromas e sons misturarem-se com a sua mente. Deixando toda a natureza que o cercava fazer parte dele naquele instante. Flutuava meio àquilo tudo. Aos poucos, não sentia mais o tocar do solo sob seu corpo, não havia mais cheiros no ar e não havia mais sons, exceto o de passos sobre o piso de madeira. 

Abriu os olhos. 

O quarto escurecia com o esconder do sol no horizonte. Estava deitado sobre uma cama, com lençóis cobrindo-o. Sua filha entrava pela porta carregando uma pequena bandeja de alumínio com seu lanche da tarde. Compreendeu tudo. Aquele era um de seus momentos de lucidez, cada vez mais raros. Nesses instantes tinha a consciência da sua situação, da dor que sentia por dentro e do que sua família fazia. A garota pousou o objeto na mesa de cabeceira e lhe sorriu. O homem a olhou com certo nojo daquele gesto tão falso, mas limitou-se a devolver um meio sorriso. Já havia se decidido a deixar tudo aquilo acontecer. Pegou a fatia de pão que ela o entregava e a faca sobre a bandeja. Mergulhou o objeto no pote de geleia e seguidamente o deslizou na superfície branca e rugosa do pão. Geleia de amora sempre fora sua preferida. E sabiam disso. Enquanto comia, os olhos dela o vigiavam e o apertavam no desconforto da cama. Ao terminar, novamente o sorriso falso foi dado e ela saiu levando tudo que outrora trouxera. Por dentro, ela gargalhava, imaginando que o homem não soubesse o que lhe faziam. 

Alguns minutos depois, a escuridão tomou conta de todo o quarto. Os olhos dele procuravam desesperadamente algo que conseguissem enxergar. Aos poucos, pequenos pontos luminosos surgiam num céu escuro. A noite estava bastante estrelada e quente. Ali dentro da tenda, os gritos dos homens indicava certa urgência. Todos pegavam suas armas e corriam para fora. O ataque havia começado. E o homem estava ali, em pé, agora sozinho, escutando os sons de tiros, explosões e de morte. Pegou uma espingarda e saiu cuidadosamente. A origem dos sons ganhava sua visão. Um cavalo passou em disparada na sua frente quase o jogando ao chão. Caminhou sobre grama e sangue procurando os seus companheiros. Observava cuidadosamente a sua volta, procurando por alguém que objetivasse matá-lo. A arma estava preparada para o tiro, mas ainda não havia encontrado nenhum alvo, nenhum inimigo. Uma chuva fraca começava a cair, molhando seu rosto e misturando-se com o suor do medo. Usou o braço para secar as gotas que lhe caíam nos olhos e quando voltou a enxergar, estava bem no meio do campo de batalha. Atirou no soldado que vinha em sua direção, acertando-o bem entre os olhos. Antes de conseguir preparar a arma novamente, levou uma pancada do lado da cabeça e caiu desorientado com as costas no chão. A guerra agora passava por cima dele, mas o estranho é que nada mais o tocava, como se não estivesse ali. Observava tudo de onde estava. Cavalos passando, batalhas sendo travadas, água, sangue, lama. Virou a cabeça e viu, no topo do morro, o contorno de alguém. Alguém estava sentado, esperando que tudo ali acabasse para chegar a vez dele fazer o serviço. Encarou por alguns segundos aquela sombra com contorno de uma pessoa. Mas aos poucos tudo foi perdendo a forma. As pessoas, cavalos, armas, tudo virava uma fumaça branca e se desfazia no ar. Por fim, só se via branco ou nada se via. Difícil saber. 

O sol batia diretamente sobre o seu rosto, fazendo-lhe acordar, mas o impedindo de abrir os olhos. Levantou a mão para cobrir a claridade que castigava sua retina e percebeu que, sentada ao lado da cama, estava agora sua mulher. Fumava tranquilamente como se ele nem ao menos estivesse ali. Quando percebeu que acordara, ela lhe deu o sorriso falso. O mesmo sorriso falso que passara para a filha. Não suportava mais aquilo. O que mais estavam esperando? Sabia que o estavam envenenando aos poucos, mas nunca quis saber o porquê disso. Sua família o queria morto e isso pra ele já era o suficiente para aceitar a morte que lhe davam no café da manhã. O gosto da sua geleia favorita nunca mais fora o mesmo desde o dia que começaram a matá-lo. O gosto da sua vida também não. A cada refeição perdia um pouco mais das forças e a sua razão e consciência nem sempre o pertenciam mais. Dessa vez, o lanche que sua mulher lhe oferecia tinha o gosto mais forte do que o normal. Compreendeu de imediato. Depois da última mordida, encostou a cabeça no travesseiro, viu sua amada esposa sair do cômodo e esperou. Estava feliz, por mais estranho que fosse. 

Não pareceu passar nem cinco minutos e a porta se abria mais uma vez. Não era ninguém da sua família. Era a sombra do outro lado do lago. Era a sombra que observava a guerra. E ele ficou surpreendido de ver que a sombra tinha os contornos belos e sensuais de uma mulher. Ela caminhou através do quarto, parou por alguns segundos do lado da cama, observando-o e o beijou. Não questionou o ato e quando se deu conta, ela estava por cima dele. Sua mente não conseguia acompanhar o que ia acontecendo. Participava de tudo com pequenos flashes de lucidez. Percebeu que estavam transando, mas não lembrava como tudo havia começado. Seu corpo sentia o contato do dela. Os beijos tinham um amor e uma paixão que há tempos não saboreava. Sentia tocá-la profundamente e o prazer consumia a ambos. Enroscavam-se por sobre a cama num delírio ardente. O orgasmo alcançou os dois no mesmo instante e os gemidos dançaram nos espaços vazios do lugar. 

Sua esposa abriu a porta, olhou em direção a cama e viu o que esperava ver. Voltou-se para trás, encarando os filhos e confirmou com a cabeça. Desceram para o jantar.

quinta-feira, 17 de janeiro de 2013

Te ajudarei a escrever a história que um dia você pensou em apagar



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Lucas estava na cozinha esvaziando as sacolas do supermercado, mas retirando somente o que precisaria para a noite. Odiava colocar as compras nos armários e geladeira, mas por não ter que trabalhar nesse dia, ficou encarregado com as funções de compras e afins. Trabalhava num escritório de advocacia que abrira há alguns anos com mais dois amigos da faculdade. Concordaram em dar-se folga para organizarem os seus respectivos planos de comemorações do dia. 

Estava ansioso pela noite. 

Colocou uma música pra encher o resto do apartamento e foi tomar um banho. Debaixo da água, cantava junto todas as músicas e até mesmo as que não sabia a letra. Estava feliz demais para preocupar-se com isso. Após sair do banheiro e vestir sua camisa branca e calça jeans, ouviu a porta da frente sendo aberta, com o característico som de um molho de chave batendo na madeira. Chegou à sala a tempo da porta revelar aos poucos o rosto de André. 

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Com um papel na mão, Lucas chega em casa e mostra à mãe o desenho que havia feito do novo amigo da escolinha. Ela abre um sorriso e diz: 

— Que lindo, meu filho! Qual o nome do seu amiguinho? 

— Victor! Ele mudou pra nossa cidade na semana passada. Ele também gosta de desenhar e a gente tem a mesma altura! – falava sempre sorrindo. 

— Que bonitinho. Depois chama ele pra brincar com você aqui em casa. – ria internamente de como as crianças tinham a bonita capacidade de aumentar a felicidade das pequenas coisas. 

Saiu gritando de felicidade pela ideia da mãe, apertando com força o papel. 

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— Victor, vou pegar mais uma cerveja, você quer uma? 

— Quero sim. Valeu cara! 

O salão estava lotado, casais se beijando, outros procurando por beijos, outros apenas tentando ficar em pé, mas o álcool não os deixava. Era a sua formatura de ensino médio e ali seria o lugar em que veria muitos dos seus colegas e amigos pela última vez. 

“Última vez”. Isso ficou martelando na sua cabeça por meses e martelava de forma brutal nesse dia. 

De volta ao círculo de conversa entregou a cerveja para o seu amigo, que novamente agradeceu. Bebiam enquanto relembravam cenas hilárias dos anos passados. Lucas suava frio com o turbilhão de pensamentos que o torturavam. Não conseguia parar de olhar para Victor. Todos os seus pensamentos naquele instante e naquele lugar eram sobre ele. Na maioria das vezes que temos dificuldade de falar o que estamos pensando, de exteriorizar um sentimento ou sofrimento contido, é por falta de um gatilho que dispare isso. 

“Última vez”. Esse era o seu gatilho. 

—Victor, bora ali fora. Te falar uma coisa. 

—Beleza! 

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Sentado na calçada observando as pessoas saindo da festa, mas por vezes olhava para o chão quando percebia que os olhares caíam sobre ele. Olhares de pena, de escárnio, olhares confusos. Deveria ter ido para a casa após tudo que acontecera, mas sentia-se desorientado, fraco, vulnerável. 

O sangue que escorria do seu supercílio misturava-se vagarosamente com as lágrimas que caminhavam pelo rosto. E a cada segundo que passava odiava-se mais e mais pelo que fizera. A conversa com Victor não foi nada do que esperava. Por alguns instantes, duvidava do que realmente havia acontecido, se era real ou se apenas tinha imaginado, entretanto o sangue aguado que pingava no chão trazia-lhe a veracidade dos fatos. E cada gota era um soco na sua consciência, uma facada no seu confuso espírito. 

“—Victor, eu queria te contar uma coisa, mas tenho muito medo do que você teria a dizer sobre isso. Então acho melhor eu dizer de uma vez. A gente é amigo desde criança, você sabe né?! Você sempre foi o meu melhor amigo durante todos esses anos, sempre me ajudou e me fez rir como ninguém. Só que o problema... bem não sei se é um problema, mas enfim. De uns tempos pra cá, durante nosso ensino médio, minha cabeça começou a ficar um pouco confusa e comecei a ter alguns pensamentos que eu não tinha. Comecei a sentir coisas diferentes... é... diferentes, acho – as mãos suando exageradamente. Deveria mesmo estar dizendo aquilo?! –. Eu tô gostando de você mais do que como amigo – Lucas sentiu-se leve por um instante, mas o silêncio que se seguiu foi como se o ar se transformasse em chumbo. 

— O que você tá querendo dizer, Lucas? Que conversa é essa? 

— Eu acho que te amo – começava a ver o mundo embaçado pela lâmina de lágrimas que cobria seus olhos. 

— Você tá achando que eu sou bicha?!?!? – essa frase foi o que Lucas ouviu após declarar um amor pela primeira vez. 

— Não é isso, é só... – não fazia ideia do que dizer. 

— Cala a boca Lucas! Essa conversa acabou!! Que desgraça aconteceu contigo?! Para com essa conversa de que me ama! Vou voltar pra festa! – virou-se e começou a caminhar. 

— Espera! – gritou Lucas e segurou o braço do amigo na tentativa de acalmá-lo ou finalizar a conversa. Entretanto esse gesto pode ter sido um erro. 

— Sai! – Victor virou-se e socou o rosto do amigo, assustando-se com a própria atitude. Mas não voltou para ajudá-lo. Caminhou de volta para a festa atordoado, assustado, olhando para trás várias vezes numa tentativa de confirmar se o que acontecera foi real.” 

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Os gritos enchiam a casa e a vizinhança. Enquanto isso Lucas fora mandado para o quarto e trancado enquanto seus pais “pensariam em uma solução para o problema”, como disseram. O menino ficou deitado com a cara no travesseiro, torturando-se com os próprios pensamentos, questionando se realmente havia um problema com ele, odiando-se como nunca. Acreditava fielmente ter perdido o seu melhor amigo, perdido a primeira pessoa que amou e, agora, perdido o seu lugar e carinho na família. 

Os gritos acabaram. 

Seu pai entrou no quarto com ódio derramando dos olhos. Pegou uma mala que estava encostada na parede e jogou brutalmente em cima do filho. Os dois ficaram alguns segundos encarando-se, até que seu pai disse: 

— Saia dessa casa! – virou as costas e bateu a porta. 

Ouvia sua mãe chorando, mas ela nada fez a respeito, o que refletia o posicionamento dela sobre o assunto também. 

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A mente tão perdida quanto o corpo. Vagava pelo passado, presente, futuro, ruas, becos e esquinas. Sentia-se sozinho. Ficou num quarto de hotel naquele dia e no seguinte procuraria ajuda de alguém. 

Ali, deitado olhando para o teto, refletia sobre si mesmo. Sobre todo o amor que tinha pela família e como isso não significou muito quando foi considerado “diferente”. Sabia que não havia feito nada de errado, mas sentia-se errado. Fizeram com que se sentisse assim. 

A tristeza que o fazia companhia no quarto era enorme, comprimindo cada parede e expulsando todo o ar do lugar. Pensava em morrer, pensava em suicídio, entretanto a vida que queria ter era mais forte do que a vontade de matar-se. Pelo menos era o que queria acreditar. Era o que precisava acreditar. 

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Acabara de chegar da faculdade e abriu a geladeira pra analisar o que teria para comer. Encontrou um último iogurte e alguns biscoitos na mesa. Levou para a sala para comer enquanto assistia à televisão. 

Morava há 2 anos com alguns amigos que conhecera no restaurante em que trabalhava como garçom. Eles faziam cursinho enquanto Lucas estudava em casa durante o dia e trabalhava durante a noite para pagar as próprias contas. Coincidentemente todos passaram juntos nos vestibulares dos respectivos cursos e decidiram por continuarem morando como estavam. Manteve o seu emprego, mesmo durante o curso. Nunca mais seus pais o procuraram ou ligaram ou mandaram cartas. Nada. Seguiu sua vida da maneira que conseguiu, anda com cicatrizes, mas nenhuma ferida aberta. 

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Saía do cinema rindo, com os braços sobre o ombro do seu namorado. Conheceram-se numa festa de um amigo de um amigo e lá conversaram bastante. Conectaram-se de uma forma que apenas quem já passou por isso sabe como é. A partir de então trocavam mensagens, telefonavam, saíam quando os dois tinham algum tempo livre. Lucas estava com uma ideia de criar um escritório com alguns amigos e isso o mantinha bastante ocupado. Seu namorado trabalhava numa empresa de automóveis. 

Caminharam pelo resto da noite até chegarem à porta do prédio de Lucas. Ali trocaram algumas palavras mais sentimentais, carícias e beijos. Por fim despediram-se. 

— Até mais! Chegando em casa eu te ligo. Não durma! – sorria mesmo durante a despedida. 

— Pode deixar! Até mais André! – ficou observando-o ir embora atravessando a noite e apenas quando estava subindo as escadas percebeu que estava sorrindo há algum tempo. 

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A porta terminou de abrir e os dois se abraçaram. Lucas começou a falar: 

— Comprei algumas coisas pra celebrarmos. Como foi no trabalho? Sacanagem fazer vocês trabalharem na véspera de ano novo. 

— Pois é, mas acabaram liberando mais cedo. – respondeu André, sorrindo como se o trabalho do dia não diminuísse sua felicidade para aquela noite. 

Seria a primeira virada de ano que passariam na própria casa. Há alguns meses decidiram morar juntos, assim esse ano havia sido muito especial para ambos. 

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Lucas sentou na varanda olhando para o céu ainda escuro. Dentro de alguns instantes os fogos iriam colorir a paisagem e misturar-se com as estrelas. A noite estava com um clima frio, mas agradável. Ali, sentado sozinho, ele pensou em tudo que passou até chegar onde estava. Pensou em Victor, no quarto de hotel, nos pais que nunca mais o procuraram, entretanto André dominava sua mente naquele dia. 

Os pensamentos foram interrompidos pelos gritos na rua. Era a contagem regressiva para o novo ano. O famoso clichê de um ano ainda em branco, esperando para ser preenchido com histórias. 

— André! 

— Tô indo! 

André chegou, mas não se sentou ao lado de Lucas. Preferiu abraçá-lo de lado, enquanto olhavam para a mesma direção. 

Os fogos começaram a explodir na imensidão negra do céu. André começou a dizer: 

— Feliz Ano No... – mas foi interrompido por Lucas. 

— Eu te amo. – pela segunda vez dizia essas palavras. Mas dessa vez os olhos dele não tiveram a coragem de encarar o do outro. Um traço de medo e insegurança ainda o acompanhava. 

Seguiu-se um tempo de silêncio. Questão de alguns segundos, mas que pareceram horas para Lucas. Tempo suficiente para a lâmina de lágrima surgir. 

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André o abraçou ainda mais forte, beijou-lhe e disse: 

— Eu sempre te amei.

quinta-feira, 1 de novembro de 2012

Espaço Morto



Os amigos em pé ao seu redor em um típico círculo social, copos nas mãos, vozes alterando-se algumas vezes, assuntos nem tão importantes e nem tão irrelevantes. Falavam, falavam, ao mesmo tempo ou individualmente, disputavam a audição dos demais. Enquanto isso, ele apenas observava. Revezava o olhar entre o ambiente, as bocas sendo escancaradas para que as palavras escapassem, o próprio copo que se esvaziava mais rápido do que conseguia perceber. Olhava frequentemente para o chão em busca de nada, fugindo de alguma coisa que nem mesmo sabia. Ou no fundo sabia, mas não tinha certeza sobre a vontade de fugir. Abriu a boca e começou a falar por cerca de um minuto e quando acabou percebeu que nenhum havia interrompido o que dizia para escutá-lo, sua voz não alcançou nenhum dos disputados ouvidos. Ninguém nem mesmo percebeu que o haviam ignorado, que o deixaram contar para as paredes uma das coisas mais importantes que vivia no momento, ninguém se importava com o que ele tinha a dizer. 

Ninguém se importava... 

Abaixou a cabeça e encarou a quantidade de bebida que ainda restava no copo, suficiente apenas para cobrir o fundo transparente de um copo de plástico descartável. Tão descartável quanto qualquer palavra que saísse da sua boca, palavra que era muitas vezes reprimida pela própria consciência, mas que de alguma forma se desprendia das cordas da sua garganta visando um pouco de luz, de espaço. Porém quando saía apenas um espaço morto a esperava. Mentia para si mesmo quando pensava estar acostumado com aquilo. Mentia para se proteger. Mentia para que as lágrimas nunca chegassem. Mas, de tempos em tempos, elas chegavam. E ele as escondia dos demais, pois lhes pertenciam. Eram lágrimas de um sofrimento que crescera junto com ele e que ganhava espaço nos seus pensamentos e, frequentemente, tomava as rédeas das emoções e o conduzia para uma dolorosa e incômoda angústia. Das lembranças de vida que tem posse, sempre notou a ausência de alguém que o escutasse verdadeiramente. Alguém que abrisse os ouvidos e a mente, que lesse cada movimento muscular mínimo que fizesse durante a sua fala, que procurasse o lugar para que os olhos dele estivessem focados. Talvez isso fosse uma exigência absurda de se esperar de outro alguém. Talvez. Mas sentia-se no vazio, no vácuo do espaço onde nenhum som se propaga, nenhum som nasce. 

Tentou falar novamente e por um breve instante algumas cabeças se viraram para ele, mas esse momento acabou quando outro começou a dizer algo. Cortou a sua própria fala no meio, sem que ninguém percebesse novamente. Uma frase amputada pairava no ar, mas só ele a via. E ela caía vagarosamente rumo ao chão, rumo à inexistência e lá ficaria e morreria. Morreria como muitas outras... 

Era curioso pensar que as pessoas que o conheciam há mais tempo e que já possuíam certo grau de intimidade e, até mesmo, de amizade eram as que menos se importavam em lhe dar ouvidos. Estranhos o ouviriam com atenção, nada excessivo também, mas escutariam sem interrompê-lo. Talvez fosse por mera educação, por receio de pedirem que alguém se calasse ou estariam mesmo interessados no que ele tivesse a dizer. Então, por que as pessoas mais próximas eram as que aprenderam a ignorá-lo? Não que fosse sempre, pois algumas vezes cediam um pouco dos seus respectivos tempos para que ele fizesse um discurso, uma confissão, um pedido, uma piada. Até mesmo deixá-lo livrar-se de um segredo. Por vezes, sufocava-se de segredos, mas nesse quesito a culpa era dele. Sentia-se bem de ser o único portador de alguns acontecimentos da sua vida, carregando fardos que talvez ficassem pesados em alguns momentos, mas aceitava a condição de carregá-los sozinhos. Talvez haja uma dose de egoísmo da parte dele também ao criticar a surdez seletiva dos amigos dessa forma. Afinal, não suportaria viver sem eles. Sabia que as pessoas eram movidas sempre por algo ao longo da vida, um sonho, um objetivo, uma ambição e, por mais que tentasse fugir do clichê, reconhecia que os amigos que possuía eram o fator que o mantinha em frente, sempre em frente. Outra coisa curiosa que percebia era que, por mais próximo que um amigo fosse, ainda existiriam coisas que só se conta para um outro amigo. Nenhum deveria saber de tudo e o tudo deveria ser dividido entre os demais. Concordava com isso, pois acreditava ser uma questão de equilíbrio e não uma mera falta de confiança. Enfim... 

Desviou-se do cemitério de frases no chão e foi em direção à cozinha, passando pelas pessoas na casa. Abriu a geladeira e encheu o copo. Não voltou dessa vez para o círculo de amigos e ficou sentado no chão encostado na parede, com o copo em mãos e o olhar perdido. E ali ficou enquanto todos riam, conversavam, bebiam, vomitavam, namoravam. Sua ausência foi tão notada quanto a sua presença. E ali ficou, apagando-se meio ao vai-e-vem das pessoas. O tempo ia passando e, aos poucos, seu rosto ficava transparente, seu corpo ia sumindo. 

Alguns segundos depois, alguém esbarrou no copo que estava no chão, derramando o conteúdo. A pessoa procurou o dono do objeto, mas não encontrou, então fingiu não ter acontecido nada e voltou para a festa.

quarta-feira, 3 de outubro de 2012

O Homem Que Lia Estrelas



Numa cidade de sempre noite, viviam milhares de pessoas um tanto quanto diferentes do que se conhece. Até mesmo a própria cidade desvia-se do nosso conceito monótono de normal. Primeiramente, não se sabe onde fica ou quando existiu ou se existiu. Talvez ainda exista. Além disso, um fato curioso, pelo menos para mim, é que a manhã nunca o alcançou esse lugar. A noite, a lua, as estrelas e a escuridão sempre estiveram sobre o mesmo. Os relógios eram uma mera forma de organizam-se, posto que não serviriam para informar as horas do dia da forma que o conhecemos. Para os habitantes isso era o habitual, pois nunca viram ou tiveram outra realidade. Diz-se que ninguém nunca saiu ou chegou nessa cidade, todos sempre estiveram lá. As pessoas que lá vivem também possuem também as suas peculiaridades. Cada um, criança ou adulto, homem ou mulher, é capaz de ver o futuro da própria vida. Até onde podem ver? Por que tem esse “dom”? Confesso que não sei responder. 

Uma cidade onde surpresas não existem, onde cada ação já tem a sua reação minunciosamente conhecida, onde a vida não tem mistérios, onde o futuro não pertence a deuses. Chega a ser confuso entender, pois se conseguem ver o futuro o que eles veem no presente? Ou simplesmente não vivem o presente por estarem sempre de olhos à frente do tempo “real”? Contudo, sempre há um “porém”. Como eu já havia dito, lá sempre é noite e são as estrelas e uma enorme lua as responsáveis pela fonte de luz. O “porém” é que, uma vez por ano, surge uma segunda lua, idêntica a primeira. Nada de mais até então. Entretanto, nesse dia de duas luas ninguém, nem adulto nem criança, nem homem nem mulher, pode ver o futuro. A nossa história acontecerá nesse místico lugar e nesse excêntrico dia. Assim, contarei o que se sabe, sem saber de onde ou porque sei. 

Havia um homem que possuía uma habilidade que ia além do complexo fato de ver adiante. Ela podia ler as estrelas. As estrelas reavivavam o passado, iluminavam o presente e confidenciavam uma espécie de futuro. Mas esse não era precisamente exato, pois uma variável das estrelas é que contam com a imprevisibilidade da natureza humana. Em todos os dias de duas luas, a população formava filas em frente à casa desse homem para que este lhes dissesse o que, naquele único dia, não conseguiam saber sozinhos. Ele não se importava com aquilo, habituara-se, sentia-se útil. E a enorme fila, aos poucos, diminuía após cada leitura do homem. Achava aquelas pessoas relativamente estúpidas, por não aproveitarem esse dia com a imprecisão e o não-conhecimento que lhes era dado. Viver ao menos um dia com o gosto da dúvida e a ansiedade do novo e do imprevisível. Por esse motivo, tal homem não olhava para o próprio futuro há anos, apenas para as estrelas. Confiava nos olhos e demais sentidos para que o guiassem ao longo do tempo. 

Quando a última pessoa da fila foi-se, percebeu que uma estrela ainda não havia lhe contado uma história. Ou seja, alguma pessoa da cidade não o procurara. Escolheu não ler a estrela sem que o dono dessa o pedisse. 

Pouco antes de a segunda lua partir, subiu no morro mais alto da cidade para observar a partida dessa visitante anual. Ali, diante das luzes de todas as casas e sob a luz de todas as estrelas, o homem observava. Uma mão tocou-lhe o ombro e virou-se. Uma mulher desconhecida estava parada, por vezes o encarando e por vezes encarando as luas. Não sabia o que ela pretendia, poderia saber se quisesse. Mas não quis. Por nunca tê-la visto, deduziu que seria a dona da estrela que não fora lida e, consequentemente, alguém que não queria ter conhecimento do futuro. Por alguns segundos, ficaram parados apenas observando ambas as faces e olhares. E, finalmente, ela o beija no exato momento que sobra apenas uma lua flutuando no manto negro do céu. 

Um flash de luz e visões invade a mente da garota que assiste, involuntariamente, um futuro que a pertencia. Um futuro que lhes pertencia. Ela viu sua vida ao lado dele. 

Um raio de sol separa o beijo do casal e, dessa vez, as visões invadem o cérebro do homem. Depois de um longo tempo sem olhar para depois do presente, ele viu um futuro que o pertencia. Um futuro que apenas o pertencia.

sexta-feira, 17 de agosto de 2012

Simplesmente, paz



O alarme do celular o fez abrir os olhos lentamente, sem compromisso com o novo dia. Deixou a música tocando por mais alguns minutos, apreciando a calma que ela lhe passava. Sempre escolhia toques mais tranquilos como despertador e dessa vez Guaranteed abriu sua manhã. O apartamento estava um tanto quanto bagunçado e empoeirado, o que geralmente acontecia quando estava sozinho. Ficou deitado olhando o teto, conferiu as horas no celular e percebeu que havia recebido uma mensagem de “boa noite” de um dos seus amigos, mas só a tinha visto naquele momento. Simplesmente, sorriu. Levantou e ligou seu computador, mas dessa vez sem interesse algum. Conferiu tudo o que precisava e o desligou alguns minutos depois. Sentia-se envolto por uma paz que há muito não lhe fazia companhia. Não entendia bem qual o motivo, talvez porque todos ao seu redor estavam bem, familiares, amigos, colegas. Ou talvez era ele quem estivesse bem consigo mesmo. Não importava, estava realmente em paz. Foi até o guarda-roupa e pegou um livro que há tempos o comprara, mas ainda não havia lido. Deitou novamente e começou a leitura. Raramente ocupava-se apenas com uma tarefa, assim, também trocava mensagens com os amigos meio a história fictícia que iniciara. Era uma forma de fazer parte do dia deles e deixar com que compartilhassem do seu dia. Na maioria das vezes, não falavam nada de muito importante, simplesmente bobagens, piadas, trocadilhos. Amava seus amigos, mesmo que não conseguisse expressar como sempre quis, mas acreditava que eles sabiam. E sabiam. 

A hora do almoço passou sem que percebesse e não teve ânimo de ir ao restaurante, talvez por não querer sair da tranquilidade em que estava ou talvez por ainda estar cheio com o hambúrguer que comera de madrugada com alguns amigos. Decidiu por fazer uma faxina no apartamento. Arrastou alguns móveis da sala, ligou o aspirador e começou a desempoeirar o lugar. O barulho que o objeto fazia não superava a música que derramava dos seus fones, caindo diretamente dentro dos ouvidos, dentro da mente e talvez até mesmo dentro da alma. De início, não percebeu que estava sorrindo e quando notou sentiu-se um pouco bobo, mas não se desfez do sorriso. Chegando ao quarto, arrumou todos os livros, papéis, dvds antes da limpeza. Surpreendia-se por ainda não estar careca, levando em consideração a quantidade do seu cabelo que havia no chão. Mas o que mais lhe chamou a atenção não foi o próprio cabelo e sim os longos fios castanhos claro que estava sobre os travesseiros e lençóis. E mais uma vez o riso bobo estampou-se na cara. Algumas noites atrás, dormira com uma bela garota, simpática, alegre e divertida. Somente os dois sabiam a respeito da noite que compartilharam. Ele raramente falava sobre sua vida pessoal, ela concordava e, mesmo não o conhecendo muito bem, compreendia-o. Talvez esse ocorrido também contribuísse para o estado de espírito em que ele se encontrava. Trocou a roupa de cama, dirigiu-se até à cozinha para um lanche e depois deitou-se para assistir um filme. 

Um dia como outro qualquer. Talvez. Mas sentia o oposto. E sentia-se bem, sentia-se cheio, sentia-se leve. Sentia-se simplesmente em paz.

quinta-feira, 5 de julho de 2012

A Caixa de Pandora



Colocou o pó de café na água já borbulhando. Enquanto a água escurecia, lavou uma xícara, preparou uma torrada e sentou-se. A música da cidade enchia o pequeno apartamento. A cozinha, como sempre, bagunçada e com um cheiro de podridão. Não se importava com isso, adaptara-se. Observava as moscas pousando sobre os talheres, mas a mente não estava ali. Nunca esteve. Estava molhada de suor, pois teve mais uma das noites de insônia que costumava ter. O sono fugia dela enquanto os pensamentos e lembranças fortes e nauseantes a tomavam. Não eram recentes. Insistiam em conviver com ela há anos, e isso a tornava a mulher que era. 

Cresceu em uma família pequena e simples, assim como a sua cidade. Amava seus pais e sua irmã. Era uma boa garota, sempre foi. Muito amigável e sorridente com todos. Talvez fosse isso! Não saberia. No entanto, hoje vivia em uma metrópole, na tentativa de deixar para trás aquilo que lhe marcou a infância e a vida. 

Lembrava-se que tudo ocorrera no dia do aniversário de seu pai. Preparavam uma festa surpresa pela primeira vez. Ela estava com 11 anos nesse dia. Estavam ansiosas com a chegada dele, conferindo se nada estava faltando enquanto riam-se de imaginar a reação do homem da casa. Mas esqueceram das velas! Por que se esqueceram disso? Se alguma delas colocasse as velas no carrinho de compras, tudo teria sido diferente. Mas não colocaram. A garota anunciou que iria comprá-las e voltaria em um instante. Correu para a porta da frente e enquanto a fechava deu um largo sorriso para a mãe e a irmã. Havia uma mercearia a dois quarteirões de sua casa. A rua já estava deserta, o que era normal para o horário, assim, acelerou um pouco o passo, tanto por um pouco de medo quanto por empolgação. Chegou à mercearia, foi para a prateleira de festas, pegou as velas e foi para o caixa. Praticamente sem fila, apenas um homem que já estava pagando. Na sua vez, cumprimentou alegremente o homem do caixa e mostrou as velas que tinham esquecido de comprar mais cedo. Voltando para casa, ficou observando os pequenos detalhes brilhantes na cera branca e azul. Distraiu-se tanto que não percebeu que um homem parou na sua frente. Era o homem da fila. Assustou-se de imediato e congelou com coração disparado. 

- Oi garotinha. É o seu aniversário? 

Não conseguia responder. Não queria conversar com ele. A estavam esperando em casa! 

- N-n-não. 

- Não fique com medo de mim. – deu uma risada e um passo a frente – Posso ver as velinhas? 

Antes que pudesse responder ou, até mesmo, pensar, ele deu mais um passo e colocou a mão sobre a boca da menina e a ergueu no ar. A carregou para fora da rua principal, entrando em um pequeno campo de futebol cercado e também deserto. Ela tentava gritar e se contorcia entre os braços do homem. Chorava como nunca havia chorado. Não sabia porque ele fazia aquilo. O que ele queria? Pra onde a estava levando? Ela não tinha mais que alguns trocados no bolso. Mas não era o dinheiro que ele queria. Era simplesmente ela. A deitou na grama sem tirar a mão da sua boca e sentou-se sobre ela pra controlar sua agitação. Como chorava! Começou a rasgar suas roupas e a deixou completamente nua sobre a grama do campo. A menina ainda segurava as velas, mas já quebradas entre os dedos devido à força com que as apertava. Os gritos não venciam a forte mão do homem, segurando-os. Impedindo cada grito de ser livre. Impedindo a garota de ser livre. Ele levou a outra mão ao zíper da própria calça e começou a abrir. A partir desse instante a garota não abriu mais os olhos. E o homem, sem um resquício de piedade, a abusava. Rasgava sua alegria, matava uma parte dela, uma parte que nem mesmo a garota conhecia bem. A fazia sentir coisas tão ruins que nem era possível que expressasse. Em determinado momento, parou de se contorcer e de resistir. Esperava que tudo acabasse, mas esperava longe do campo, longe da cidade, longe. Desmaiou. 

Acordou, vestida, na sua casa, cercada pela família e por alguns policiais. Ouvia uma agitação na porta da sua casa. Os vizinhos estavam todos na porta querendo saber o que havia acontecido e tentando ajudar como pudessem. A menina não entendia muito bem o que havia acontecido ou se foi tudo real. Quando tudo lhe voltou à mente, sentiu-se suja e envolvida por um emaranhado de sentimentos tão cruéis, que sentia sua alma ser apertada, como se fossem os braços do homem. 

Passaram-se 15 anos desde então. Os mesmos sentimentos ainda a envolviam. 

Levantou, pegou o café e serviu-se. Após acabar de beber, dirigiu-se ao quarto e deitou-se ao lado do rapaz que estava na cama. O conhecera no dia anterior em uma livraria e passaram a tarde juntos. Gostou do jeito calmo e simpático dele. Com o cair da noite, decidiram dormir em seu apartamento, mas nada além aconteceu. Ela apenas disse que não estava pronta. Ele lhe deu um beijo no rosto, sorriu e abraçou. Dormiram com esse mesmo abraço. Agora, ela lhe deu um beijo no rosto, o acordou e sussurrou em seu ouvido: 

- Estou pronta, mas terá que me prometer apenas uma coisa. 

Após ouvir o que ela disse, hesitou um pouco, mas concordou sem entender o porquê. E após todos esses anos, ela se entregou a um homem e foi amada de uma forma que nunca havia conhecido. Ele foi carinhoso com ela durante cada segundo até que essa nova experiência terminasse. 

Minutos depois ele saiu do apartamento. Olhou para ela do corredor com um olhar triste, mas compreensivo. E cumpriu a promessa que lhe foi pedida: a de nunca mais se encontrarem. A história deles seria aquela, de apenas um dia. Ambos ficariam com aquele momento, em que tudo foi perfeito, e parariam por aí. 

De volta ao quarto, abriu a gaveta e pegou pedaços quebrados de velas. Os jogou fora. Todos os sentimentos cruéis estavam agora presos fora dela, bem longe dela. Mas um sentimento novo agora ficou trancado junto do seu peito. Sentia a companhia da esperança.